L 1: At 6, 8-15; Sl 118 (119), 23-24. 26-27. 29-30; Ev: Jo 6, 22-29
O milagrismo é uma das doenças espirituais do nosso tempo já presentes nos relatos do Evangelho. Pode ser que estejamos diante de um dos paradoxos do Evangelho: ver-se Jesus a fazer milagres e a tendência dos discípulos me que quererem que Ele os faça para terem as suas necessidades físicas ou psicológicas permanentemente satisfeitas. Acreditar em Jesus é a resposta perfeita a um milagre; não a tensão da busca permanente de milagres. Quem precisa que Jesus faça muitos milagres não acredita nem num só que Ele tenha feito.
É por isto que o evangelista João prefere falar de sinais. Sinais que alimentam a fé em Jesus, o alimento essencial que nos leva à vida eterna. E aos sinais já dados, é pedido que acreditemos. Que sinais “já dados” são esses? Os Sacramentos. O testemunho da Palavra Incarnada. A Igreja. O próprio Jesus salvou-nos e continua a salvar-nos com um único Sacrifício. Não sacrifícios.
Um dos casos em que se percebe bem a diferença entre o milagrismo e o verdadeiro milagre é a vida de Estêvão, conforme nos é relatada pelo Atos. Os “Libertos” da sinagoga não estavam a aguentar a sabedoria com que o diácono Estêvão fazia prodígios e milagres. Fica clara a diferença dos sinais que são feitos em nome de Deus e a favor dos homens e dos interesses religiosos que respondem aos apetites ou tradições humanas. O maior milagre é a vida de Estêvão entregue, é perder a vida para a encontrar. Ganhar a vida neste mundo é, efetivamente, perdê-la. Estêvão fazia milagres porque a sua vida era um milagre de Deus, enquanto muitas vezes os que procuram milagres o fazem para preencher o vazio da relação com Deus.
Esta manifestação do Espírito Santo na Igreja repetiu-se e repetir-se-á continuamente, como naquela cena da vida de São Filipe de Neri, em que um frade chama Filipe a constatar o milagre que uma freira estava a realizar com a cura de um leproso. Depois de ela realizar o milagre, Filipe vai ter com ela e trava-se o seguinte diálogo:
Filipe: Perdoe-me, permite-me uma palavra?
Freira: O que é? Estou muito cansada.
Filipe: Eh, também eu. Venho de San Girolamo (della Carità) e fiz o caminho todo a pé. Nem lhe digo em que condições está a estrada. Poderia tirar-me os sapatos?
Freira: O quê?
Filipe: Dizia se gentilmente me darieis uma mão.
Freira: Mas como vos permitis, senhor? Eu sou a serva de Deus. Não sou vossa serva.
Filipe: Era só isto que gostaria de saber.
Com a sua simplicidade e humor, Filipe de Neri ajuda-nos a perceber como podemos dar testemunho de Jesus, não andando à procura de milagres nem induzindo as pessoas a procurar milagres, mas a fazer da vida um Milagre, como a vida de Jesus foi um Milagre. A vida cristã é sobre a verdadeira natureza do serviço cristão.
A freira do diálogo com Filipe de Neri é uma representação arquetípica de alguém que deseja servir a Deus através de grandes atos, mas que ainda não compreendeu a essência da humildade radical. O santo assume o papel de necessitado e pede à freira que tire os seus sapatos. Então, ela entra em choque e fica indignada porque ele lhe pedir este serviço humilde, depois de ter estado diante de um leproso? A ironia da situação é esta: ela confunde a hierarquia religiosa com a prática do amor. A lição central é clara: A verdadeira espiritualidade não se valida por títulos ou por uma ideia abstrata de “servir a Deus”. Para São Filipe de Néri, o serviço a Deus é inseparável do serviço ao próximo, especialmente ao mais humilde, ao doente ou ao mais desprezado. Servir a Deus não é algo que se faça à parte de servir as pessoas. Se nos recusamos a servir alguém (especialmente nas tarefas mais humildes ou “inferiores”), não estamos, na verdade, a servir a Deus, pois Ele identifica-se com os necessitados. A freira acreditava que a sua dignidade como “serva de Deus” a protegia de ter de realizar um gesto de serviço humilde a um semelhante. Filipe de Néri ensina-lhe que, na verdade, o gesto humilde é exatamente o que a tornaria, de facto, uma serva de Deus. Em resumo, o santo confronta a soberba espiritual com a simplicidade do Evangelho: não pode haver separação entre o amor a Deus e o serviço concreto e humilde aos irmãos.
Outros exemplos poderiam ser dados a este respeito. Um outro que me lembro é a relação entre a Eucaristia e os milagres eucarísticos, por vezes ignorando-se que o milagre eucarístico por excelência é a existência da Igreja, Corpo de Cristo, como nos garantiu o Papa Bento XVI no seu Testamento espiritual.
No Expresso escutei um Podcast com o título “Quando a morte leva à vitória: por que causas estaríamos dispostos a dar a vida?“. Um Podcast sobre pessoas que aceitam colocar a sua vida em risco para proteger a vida de outra pessoa. Dar a vida pelos outros ou dar a vida por alguma coisa em que se acredita profundamente, a liberdade por exemplo. Sobre quem está disposto a dar a vida pelo seu país. Ou sobre que pais estão dispostos a enviar os filhos para a frente de combate. Diz-se que o patriotismo é maior quanto maior é a ameaça externa. Morre-se por questões ideológicas, políticas e religiosa, não faltam causas para glorificar a morte de alguém. Há quem entenda que existe honra em determinadas formas de morrer e há quem não veja sentido nenhum em estar disposto a dar a vida ou a tirar a vida. Este episódio é uma conversa difícil sobre o que pode levar alguém a aceitar morrer. Em nome de quê?
Penso que é o que o Papa Lexão XIV anda a fazer arriscando a sua vida pela paz e pela unidade da fé entre os países que vai visitando, ao passo que outros usam a linguagem da fé para fazerem os falsos milagres do bem-estar. Aquilo a que o Papa Francisco chamava de “mundanismo espiritual”. Rezo, portanto, pelo Santo Padre, para que a sua atitude de pacificador grave bem no fundo dos nossos corações o amor a Jesus Cristo que é caminho, verdade e vida para a humanidade inteira. E rezo por todas as pessoas que se entregam diariamente por causas nobres, como é a defesa da dignidade da vida humana e os valores do Reino que Jesus defendei com a sua própria vida.
