navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: At 4, 23-31; Sl 2, 1-3. 4-6. 7-9; Ev: Jo 3, 1-8

A liturgia do tempo pascal é praticamente uma mistagogia para os novos filhos de Deus pelo Batismo, guiada pelo Espírito Santo entre a escuta da Palavra e a sua aceitação na vida prática. É a continuidade na iniciação cristã que levou os catecúmenos a viver em Cristo, mas que não terminará mais nesta terra, pois o seu horizonte é viver a plenitude do Reino. E porque é que a liturgia pós-pascal é explicação de um estado de vida já assumido e não se explicou tudo antes de os catecúmenos serem batizados? Santo Ambrósio dizia não era antes de termos sido iniciados por meio deles que os poderíamos ter entendido, mas agora que, por eles, estamos introduzidos na comunidade da Igreja. Poderíamos explicar desta forma, fazendo a integração psico-espiritual: na experiência de aprendizagem dos sentidos, primeiro precisamos de conhecer algo depois amarmos; na experiência espiritual cristã, primeiro somos/sentimo-nos tocados por um amor ultramundano que não conhecemos e que nos aventuramos a compreender pelo caminho. Por outras palavras: na aprendizagem pelos sentidos, primeiro tentamos saber e depois é que nos alistamos; na experiência espiritual cristã, somo somos levados por uma mão carinhos a estar, e depois é que procuramos investigar. O conhecimento pelos sentidos pode enganar-nos; o amor espiritual não nos engana. (Poderíamos aqui alongar esta reflexão através da diferenciação entre enigma e mistério.)

Ontem (Domingo II da Páscoa), o Evangelho colocou diante dos nossos olhos a incredulidade de Tomé; hoje estamos diante de Nicodemos e da sua “noite”. Quer no caso de Tomé, quer do de Nicodemos o que está em questão não é saber ou não acerca de Jesus; eles até sabiam quem era. O problema é o estar ou não em Jesus, ou tê-l’O como centro-luz das suas vidas. Para todos nós: não se trata só de sabermos que Jesus veio ao nosso encontro e sabê-lo formular com a teologia toda; trata-se de nós irmos ao seu encontro com um coração aberto e generoso. Já não se trata só de nascer da carne, mas também do Espírito. A carne leva-nos a vestir uma roupagem com etiquetas humanas com vários tipos de preços; o Espírito leva-nos a vestir uma roupagem sem etiquetas, mas com valores, os do Reino de Deus.

Quem tratou do nosso nascimento pela carne foram outros. Tratar de “nascer de novo” é um empreendimento que cada um terá de decidir pela própria liberdade, não sem a ajuda da comunidade dos crentes (“água”) e o Espírito Santo (“fogo”). Jesus, ao dizer O vento sopra onde quer: ouves a sua voz, mas não sabes donde vem nem para onde vai. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito, está precisamente a constatar que muitos são os que ouvem a voz, mas poucos são os que sabem para donde donde vem o Espírito e para onde vai. Saber o quê é pode ser para muitos, mas saber o onde é para os que se atrevem a deixar-se chamar e escolher.

Quando Jesus diz à mulher samaritana Mas vai chegar a hora – e já chegou – em que os verdadeiros adoradores hão de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são esses os adoradores que o Pai deseja (Domingo III da Quaresma), Ele mesmo está a dizer qual o “lugar” em que o Pai deseja que os filhos estejam: em espírito e verdade. Por isso, não podemos pretender de saber tudo ou ser bons em tudo para vivermos em espírito e verdade, mas esta é a hora de decidir estar no caminho com Jesus, crescendo com o seu Espírito Santo. Porque só vivendo descobriremos Jesus vivo (Frei Marcos).

Hoje, pensando na oração dos apóstolos ─ diante da dupla ameaçadora Herodes-Pilatos ─ rezo consternado com a política de Trump e a sua cumplicidade com Israel, na qual podemos ver com caraterísticas de nacionalismo cristão, trumpismo religioso, nominionismo (new apostolic reformation), pós-secularismo conservador ou um tipo de liberdade religiosa que procura reverter a secularização da esfera pública e proteger o direito de indivíduos e empresas agirem de acordo com as suas convicções religiosas. No fundo um “negócio da fé” para quem quiser colaborar com o “negócio da guerra”. Todas estas caraterísticas têm que ver com o chamado “siunismo cristão” do extremo oriente ligado com a administração de Trump. Aquele é uma crença (partilhada por milhões de evangélicos, especialmente nos EUA) de que o regresso do povo judeu à Terra Santa e o estabelecimento do Estado de Israel em 1948 são o cumprimento de profecias bíblicas. Para muitos destes crentes, o apoio incondicional a Israel não é apenas uma escolha geopolítica, mas um imperativo teológico. Aquele “abençoarei os que te abençoarem” anda por aí muito mal usado como refrão de cúmplices em objetivos que não têm nada ver com o Evangelho de Jesus Cristo, tendo em vista eventos tidos como pré-requisitos para a segunda vinda de Cristo.

Em confronto, o Papa Leão XIV tem-se destacado com o universalismo católico, condenado líderes que “invocam a religião para justificar o nacionalismo e a guerra”, ensinando que a fé não deve ser usada como uma ferramenta de exclusão de imigrantes ou de afirmação de supremacia nacional (Trump tem atacado o Papa publicamente, chamando-o de “muito liberal” e acusando a Igreja de não defender as raízes cristãs do Ocidente com a força necessária). O Papa tem apelado a uma “paz desarmada e desarmante”. Ele rejeita a ideia de “Guerra Justa” no contexto atual e criticou duramente a ameaça de ataques americanos a infraestruturas iranianas, classificando o uso da religião para alimentar o conflito no Médio Oriente como um “escândalo”.

Custa-me muito, também, que possa haver instituições ou movimentos da Igreja Católica que sigam mais a autorreferencialidade do que o caminho sinodal e que apoiem mais em apadrinhamentos políticos do que na Palavra de Jesus que se torna patente no Magistério da Igreja.

Peço ao Senhor que nos ajude a fugir de um cristianismo alternativo que leva os homens a procurar ali apoio para fins próprios, e a viver, como Leão XIV, uma vida de fé universal desarmada e desarmante, que não seja arma política nacionalista. Oremos, irmãos.

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