L 1: Jr 7, 23-28; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9; Ev: Lc 11, 14-23
Na sequência da declaração de que Jesus Fulfills the Law (Jesus cumpre a Lei), nesta Liturgia da Palavra é-nos dado contemplar uma teologia prática.
Entre os textos evangélicos que comprovam que Jesus realizou exorcismos, segundo os biblistas, encontram-se: relatos de exorcismos, ditos em resposta à acusação dos seus adversários e resumos da atividade de Jesus. Hoje encontramo-nos com um destes ditos, que serve para provar que Jesus realizou exorcismos. E a prova é dada pelos adversários do Mestre, que o acusam, ainda que indevidamente, negando a sua “pretenção” de o fazer “pelo dedo de Deus”. Os exorcismos são, pois, um sinal da chegada do Reino de Deus e da ação do Espírito Santo sobre o espírito que domina o mundo.
A missão de Jesus de libertar pessoas possuídas ou atormentadas pelos espíritos malignos é apresentada pelos Sinóticos como parte essencial do seu ministério messiânico, distinguindo-a da não menos importante atividade taumatúrgica (de fazer milagres), que costumava ser finalizada pela cura de pessoas aflitas por várias doenças e enfermidades.
Estamos diante de um problema bíblico delicado, porque os fariseus também operavam exorcismos, mas estes pela força da Lei (de Deus), enquanto que Jesus o fazia pela força do Espírito Santo que dá Vida. Por isso é que os fariseus não estavam capazes de entender por quê ou por Quem Jesus o fazia. Este é um dos momentos em que Jesus insinua a presença de um Deus como Trindade, da força do Pai que é o Espírito que Se manifesta n’Ele. Para Jesus esta relação entre Deus e os aflitos é algo primário, enquanto que para os fariseus é a relação com a Lei que é primária. Para Jesus, a cura e libertação de um doente tem um valor definitivo, ao passo que para os fariseus a cura dos doentes era algo secundário.
Por fim, subentende-se o poder do mais forte: Deus revela-Se mais forte do que Satanás que até agora tinha dominado a terra. Em Jesus mostra-se o sinal no qual Deus atua contra Satanás e o derrota. Todos estes argumentos se situam no plano da fé e condensaram-se nas palavras de Jesus: “se Eu expulso os demónios pelo dedo de Deus, então quer dizer que o reino de Deus chegou até vós”. “Dedo” significa aqui força ou poder da atividade que Deus realiza por meio de Jesus. Podemos ver, até, aqui um paralelismo com o episódio da defesa da mulher adúltera (Jo 8,1-11), em que Jesus “inclinando-se, pôs-se a escrever com o dedo na terra” (v. 6b). Por aqui, podemos compreender que Jesus escreve o Evangelho em tempo real, com o que pratica e ensina. Com a sua Pessoa, qual “Dedo” de Deus, é escrito o caminho de misericórdia e de salvação acessível a toda a humanidade. O único limite é a obstinação dos corações humanos em não escutar e escolher pelo bem.
Jesus tinha a certeza de ser instrumento da obra salvadora de Deus à qual tendem os seres humanos. O Reino também já está presente, de forma latente, e torna-se patente quando Jesus nos liberta das forças do mal. É precisamente aquilo que sucede quando Jesus expulsa os demónios, perdoa os pecados e suscita um campo de fraternidade entre os homens. O Reino não vem por sinais exteriores, ele acontece ou começa a mostrar-se onde Jesus liberta os homens da forma do diabo (o desumano) e os conduz ao futuro da graça, liberdade e vida. Esta é a fé do Evangelho, contrária à opinião dos fariseus, que interpretam a obra de Jesus como expressão da presença e da influência de Satanás.
No fundo, Jesus afirma que o Reino de Deus já está em ação. Não é uma teoria ou código diante do qual devamos estar meramente conformados, mas um dinamismo profundo dentro do qual mergulhar o nosso coração e ativar a nossa capacidade de escolher pelo caminho de Jesus Cristo. Na Quaresma, a fidelidade do homem novo, em nós, joga-se entre a escuta e a escolha: a escuta de Jesus e a escolha das ações que nos conformam a Ele e ao seu Reino.
