navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1: Ex 17, 3-7; Sl 94 (95), 1-2. 6-7. 8-9 L 2: Rm 5, 1-2. 5-8; Ev: Jo 4, 5-42, no Domingo III da Quaresma (A). Os itálicos referem-se às admonições do dia. Reflexão inspirada, em parte, em Ermes Ronchi.

A liturgia da Palavra deste 3º domingo da quaresma traz-nos o tema da sede. Logo na primeira leitura contemplamos a sede do povo que caminha no deserto, diante do qual Deus não demora a dar-lhe uma solução através de Moisés. Dão-se conta, no meio do deserto, que Deus está no meio deles e é ali que Ele lhes quer matar a sede. Este povo continuamos a ser nós que, no meio das nossas histórias pessoas e comunitárias, por vezes, nos momentos mais áridos, nos colocamos a olhar para trás, para aquilo que parecia matar-nos a sede, mas, afinal, não a matou definitivamente. Então, Deus continua a estar no meio de nós e a querer saciar-nos a sede, não só física (a água é fundamental para vivermos, uma vez que o nosso corpo adulto é de aprox. 70% feito de água), mas sobretudo sede de vida eterna. Quem, no meio de um descampado seco, encontrando-se com um pequeno oásis não pararia para beber a água de que precisa para recuperar as forças para o resto do caminho?

Por isso, cantámos hoje no salmo: “Se hoje ouvirdes a voz do Senhor, não fecheis os vossos corações”. Porque é no hoje, no aqui e agora, que a fé nos leva a deixar que Deus nos mate a nossa sede. Paulo viu essa fonte que mate a se de de vida eterna no meio do caminho de Damasco. Foi “por Nosso Senhor Jesus Cristo, pelo qual, na fé, temos acesso a esta graça, em que permanecemos e nos gloriamos, apoiados na esperança da glória de Deus. Ora, a esperança não engana, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado”, como o próprio Apóstolo disse aos Romanos. E acrescentou: “quando ainda éramos fracos… quando éramos pecadores”.

Hoje, a Samaritana é o tipo daqueles que, vindos de longe, ao escutarem a palavra do Senhor, sentem nascer dentro de si a sede nunca antes experimentada do dom de Deus, sede que só Jesus pode saciar. É Ele a fonte de água viva. Jesus mostra-lhe a sua sede de água terrena, para que ela Lhe mostra a sua sede de água eterna.

Aquela mulher é sem nome e de uma vida frágil. No fundo, Jesus não tem sede de água, mas sede que tenhamos sede de Deus, sede de ser amado. Desde que Deus nos dá a vida que nos quer convidar a viver em boda permanente com Ele. O povo de Samaria representa toda a humanidade, a “esposa” que andou à procura de outros amores e que Deus, como um “esposo” quer reconquistar. E como é que Deus se aproxima desta humanidade? “Se conhecesses o dom de Deus”. É assim que Deus cativa a humanidade! E Ele dá-nos uma água que se torna fonte, um meio através do qual quer saciar a sede profunda do nosso coração humano.

Não é com uma reprovação, uma crítica, uma acusação, mas fazer degustar um mais de beleza, um mais de bondade, de vida, de primavera. Uma fonte é mais do que aquilo de que precisamos para matar a sede de um instante: é sem medida, sem fim, sem cálculo, sem esforço. É exuberante e excessiva. Não verte para si, mas par aos outros. Deus é assim, vindo a sentar-se à beira do nosso próprio posso da nossa sede…

Como a beira do coração daquela mulher, em que Jesus, falando na sua própria linguagem, lhe diz: “Vai chamar o teu marido…”. Ele vai direito ao centro, porque é sobre o dar e receber amor que se pesa a bem-aventurança da vida. E ali, Jesus encontra-Se com a verdade daquela mulher: “Não tenho marido”. A sinceridade do coração é aquele fragmento de ouro no qual se apoia o resto do diálogo. E Jesus não a envia a resolver as coisas no passado, nem a reprova, mas apresenta-lhe sem demora Quem Ele é o o caminho a seguir no futuro. Diz-lhe qual é o Deus que ela é chamada a adorar, não ali, nem em Jerusalém, mas “em espírito e verdade”.

Irmãos e irmãs, à luz deste Evangelho, e no meio da caminhada de quaresma, é oportuno, cada um de nós, também, analisar o “poço” do próprio coração, deixando que Jesus se sente ali connosco a fazer-nos perguntas, não a condenar-nos por isto ou por aquilo, mas a deixar que lhe digamos quais são as nossas sedes, que nós tendamos saciar como desejamos, mas que Ele quer redirecionar par a verdadeira fonte. E Jesus dá o exemplo, nomeadamente aos seus discípulos, que tinham ido comprar comida para Ele comer: o que Me alimenta é “fazer a vontade de meu Pai”. Por isso, em reflexão com os padres costumo sublinhar muito que a caridade pastoral é o alimentos dos alimentos espirituais do padre: alimentar-se do que faz em favor dos outros, em nome de Deus.