L 1: 1Rs 11, 4-13; Sl 105 (106), 3-4. 35-36. 37 e 40; Ev: Mc 7, 24-30
Segundo o evangelista Marcos, o caminho de Jesus ou o Caminho que é Jesus não se limita à região da Galileia, mas passa as fronteiras e penetra em território pagão. A sua salvação é universal, embora obedeça a uma “etiqueta” étnica: primeiro os judeus e depois os gentios, como dirá Paulo em Rm 1,16.
A mulher siro-fenícia sabe desta prioridade étnica e aceita-a humildemente. Pode é ignorar a origem possível desta “fronteira” cultural, que se deverá ao passado que está narrado no primeiro livro dos Reis. Ela, sabendo ou não, carrega os desvios que as suas antepassadas causaram ao coração do rei.
A aparente dureza das primeiras palavras de Jesus no seu confronto será irónica, porquanto reflexo da cultura judaica à qual pertencia, querendo resolver a eventual ignorância daquela mulher a respeito do que é narrado na primeira leitura, mas, ao mesmo tempo, provocação para que a mulher desenvolva a sua auto-estima no seu confronto com Deus. É assim a pedagogia humano-divina de Jesus: ao querer aproximar-nos de Deus, ao mesmo tempo, desvia-nos dos abismos que nos podem afastar d’Ele.
É curiosa a utilização da expressão carinhosa “cachorrinhos” aos quais as crianças davam de comer na sua relação doméstica, e não a de “cães” na sua conotação a estrangeiros desprezíveis. Talvez, neste tipo de linguagem, esteja o ponto de encontro mais significativo, do ponto de vista terapêutico: entre o animal domesticável e a parte animalesca indomável que há nos seres humanos, é necessária a “invasão” de um gesto superior, profético, por um lado, a considerar que há em todos os seres humanos uma dignidade fundamental que os une e, por outro, sentimentos e ações que os separam. Jesus incarnou para nos ajudar a defender o primeiro aspeto e para nos curar do segundo.
Se aprofundarmos a interação entre inculturação da fé e evangelização das culturas, verificamos que quer os evangelizados quer os evangelizadores saem quer inculturados na sua forma de crer, quer evangelizados nas suas culturas. À exceção de Jesus que é, Ele próprio, o Evangelho ou Boa Nova, todos os seres humanos, quer sejam, no dizer que Tomás Halík, “habitantes”, quer sejam “buscadores” têm algo das sementes do Evangelho a dar. Aquela mulher estrangeira tinha humildade e confiança, que são valores evangélicos. Os discípulos-missionários levam as palavras e os gestos (sacramentos) de Jesus. Quer a inculutração da fé, quer a evangelização das culturas, requerem sempre uma certa “invasão” que implica, para ser bem sucedida, a utilização de uma linguagem comum de aproximação, como a expressão “cachorrinhos”.
Jesus vai além das fronteiras judaicas para averiguar pastoralmente da dificuldade em a humanidade assumir a universalidade da sua mensagem de salvação. E há outras fronteiras que Ele, como Ressuscitado, invade para além das geográficas ─ culturais, temporais, religiosas ─ provocando e deixando-Se provocar através de um diálogo baseado na confiança mútua. Também há outras fronteiras em que o Tempo da Quaresma é propício para sermos guiados na preparação da Páscoa: as nossas fronteiras interiores, que Jesus nos quer ajudar a passar dando-nos a sua mão benevolente. Deixemo-lo exercer esta passagem como aquela mulher siro-fenícia: com humildade e confiança.
Utilizando o modo de ler o Evangelho próprio de Anselm Grün, que vê as personagens bíblicas como espelhos de dinâmicas interiores, pode ser-nos útil à nossa conversão pessoal a sua abordagem psico-dinâmica, que costuma seguir algumas linhas constantes, como estas:
• Há uma parte do nosso “eu” que é marginalizada e representa a parte “pagã” da nossa psique que busca a salvação (como o coração de Salomão); e há uma “criança” interior que simboliza as feridas profundas, traumas e conflitos inconscientes que paralisam a vida.
• Jesus realiza gestos terapêuticos que começam pelo aparente distanciamento inicial, um modo de pôr à prova e amadurecer os nossos desejos interiores, ajudando-nos a encontrar a palavra firme, uma auto-afirmação humilde mas decidida.
• Acontece o diálogo como processo de cura relacional: quando assumimos a nossa verdade, rompe-se a posição de passividade e vitimização e entra-se numa relação adulta com Jesus, abrindo-se espaço interior para que o “demónio saia”, isto é, para que aquilo que oprimia (medo, dependência, culpa) perca força.
• Precisamos, como aquela mulher pagã, de incarnar humildade e autoestima saudável, não nos colocando no lugar do que ainda não somos, nem nos considerando como “lixo”; e é justamente aí onde Jesus exerce a cura, na verdade que liberta. A cura da filha simbolizaria a libertação da parte de nós mesmos que estava “possessa” por imagens negativas de Deus, dos outros ou de nós próprios, imagens que se transformam quando nos arriscamos a um encontro verdadeiro com Cristo.
No filme de ficção “Mulher-Maravilha 1984” (2020), a protagonista Diane, protagonizada pela atriz israelita Gal Gadot, compreende que não pode derrotar a lógica dos desejos com mais poder, mas apenas com a verdade e o sacrifício; por isso, abdica do seu próprio desejo para combater o opressor que andava a conceder ao mundo a realização dos seus desejos a troco de mais poder. Ao convencer as pessoas a abrir mão dos seus desejos egoístas, elas retiram poder ao sistema de desejos ilimitados que Max (protagonista do mal) encarnava, e assim o mundo começa a sarar.
