L 1: 1Sm 17, 32-33. 37. 40-51; Sl 143 (144), 1. 2. 9-10; Ev: Mc 3, 1-6, na memória de Santa Inês, virgem e mártir. Os itálicos são das admonições do dia em liturgia.pt.
Na primeira leitura de hoje presenciamos aquele que, porventura, terá sido o primeiro encontro entre David e o rei Saul. É curioso que nas suas primeiras palavras para David, em certo sentido e embora consentindo-o, Saul imita a atitude do filisteu, desprezando o seu entusiasmo em obedecer ao mandato do Senhor de abater Golias, por não passar de um “rapazito” ou “rapaz novo”. É tendência humana pensar-se que as lutas com os grandes ou com os grandes desafios da história estejam somente reservadas para pessoas mais velhas, por uma questão de maior experiência ou porte de melhores armas. Mas Deus prova-nos agir de uma outra forma.
A vitória de David sobre Golias, o filisteu, manifesta, por um lado, o poder de Deus, sempre maior do que as fracas forças do homem, e, por outro, que Deus revela esse seu poder sobretudo nas circunstâncias mais frágeis dos homens. A glória do homem é estar nas mãos de Deus, e poder servir de instrumento, para que Deus realize, por meio dele, a sua obra, que é sempre de salvação para os homens. Prova disto mesmo é o relato da cura do homem com uma das mãos atrofiada. Parafraseando o Evangelho com os símbolos da primeira leitura, pode dizer-se que na “funda” do Senhor está um homem doente e o Mestre atinge a “testa” dos fariseus, “doentes” da falta de sinceridade sobre o sentido do descanso sabático e de indiferença para com os que sofrem, colocando o cuidado para com aquele doente no meio das atenções e considerações.
Os futuros e os atuais presbíteros hão-de confrontar-se ou confrontam-se com situações de um imperioso discernimento entre o cumprir uma norma convencional em favor da comunidade saudável e o cuidado urgente para com os mais frágeis da comunidade. A programação da vida pastoral há de sempre deixar espaço suficientemente generoso para o cuidado para com os mais frágeis. E estes não estão meramente nas instituições de solidariedade social, mas nas ruas da sociedade, de onde é preciso integrá-los na comunidade que reza e cuida!
Jesus procura fazer compreender o sentido profundo das observâncias religiosas, particularmente do descanso do sábado. Mas os fariseus e os herodianos teimam em ser cegos. São cegos “seletivos”. Há os que ouvem só o que querem. Eles veem só o que querem ou veem em favor dos seus interesses legais e pessoais. Na verdade, confundiam o trabalho realizado por um corpo são com o cuidado para com uma pessoa doente. Nunca se deram ao trabalho de investigar que um é trabalho e o outro é amor. Não queriam entender e aceitar que a novidade do amor de Jesus que salva supera toda a lei, incluindo a lei do Sábado. Para os mestres da lei, a lei maior era o descanso sabático, por Deus ter criado o mundo e ter descansado ao sétimo dia. Já Jesus demonstra com a sua atitude que o maior mandamento é o amor a Deus e ao próximo. O amor é o maior mandamento para Deus.
Ora, os fariseus, impedindo as pessoas doentes de ser curadas, arriscavam-se a “abusar religiosamente” das doenças dos outros, punindo-as com multas, ou obrigando-as a uma religião da dependência de orações ou sacrifícios infindáveis no templo. O que os move, portanto, não é o zelo sincero, mas o ódio para com estas ações de Jesus libertadoras das doenças sofridas pelos seres humanos e do sistema religioso opressor. Curiosamente, a mão atrofiada ou seca do homem que Jesus coloca no centro das atenções pode bem significar, também, um sistema religioso atrofiado que já não serve como fonte.
Na liturgia do passado domingo, respondendo ao testemunho de João Batista, que apontou para o “Cordeiro de Deus” manso e humilde, “que tira o pecado do mundo”, desafiava os fiéis da assembleia com que celebrei ao seguinte “TPC”: ser reflexos da luz do Cordeiro, aquela presença concreta que cura, que transforma e que chama à conversão; e tentar vislumbrar a Sua presença nas pessoas mansas e que estão sempre prontas a criar laços de paz; de darmos conta quem são os “cordeiros no meio de lobos”, a responder ao mal com o bem, à ofensa com o perdão, à indiferença com a ternura. Hoje, dou-me conta de que com Santa Inês à minha frente, este “TPC” é mais fácil de realizar. Nela contemplo o “Evangelho da mansidão” pelo qual esta virgem e mártir é cúmplice do “Esposo” a quem se entrega. Como compara Santo Ambrósio, ela ultrapassa as meninas da sua idade que “não suportam sequer o rosto zangado dos pais e choram como se de feridas se tratasse por causa da picada de um alfinete”, e “oferece o corpo à espada do soldado furibundo, sem saber o que é a morte, mas pronta para ela”. “Novo género de martírio! Ainda não apta para o sofrimento e já madura para a vitória; mal pode combater e facilmente triunfa”.
Esta manhã, como de costume, na Capela de Urbano VIII, foram apresentados ao Papa dois cordeiros que serão abençoados por ocasião da memória litúrgica de Santa Inês, Virgem e Mártir, na Basílica homónima na Via Nomentana. A lã desses cordeiros será usada para confecionar os pálios dos novos Arcebispos Metropolitanos. O pálio é um insígnia litúrgica de honra e jurisdição que é usada pelo Papa e pelos Arcebispos Metropolitanos em suas Igrejas e nas de suas Províncias Eclesiásticas. O pálio é constituído por uma estreita faixa de tecido, tecida em lã branca, decorada com seis cruzes em seda preta e os três cravos da cruz de Cristo. O rito da bênção dos pálios e a entrega aos Arcebispos Metropolitas são realizados pelo Santo Padre no dia 29 de junho, na solenidade dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo. Como Inês, em italiano “Agnese” (hagnós = casta, pura, sagrada), os que usam o pálio são, também, chamados a participar no poder pastoral do Papa (que também usa o pálio) e da sua jurisdição na sua província, como testemunho/martírio da pureza diante de Cristo e da mansidão diante de todos.
APP Descanso sabático
Inspirado nas raízes judaico-cristãs, o descanso sabático é, hoje, uma realidade necessária nos âmbitos da vida profissional e, até, pastoral. Por vezes, de forma controlada pela direito e em diálogo com superiores, o descanso sabático (seja ele semanal, mensal ou anual), é muito útil quer para o descanso, quer para o desenvolvimento de algum aspeto da vida pessoal ou profissional. Visto a partir da “lente” ética, o descanso pode fazer parte da cura, como aspeto terapêutico de uma situação atrofiante da vida.
Como cuidas do teu descanso? Como lidas com o descanso dos outros? Usamos ou defendemos o descanso como lei ou como terapia? Em grego therapeia traduz-se por trato ou serviço. Uso o meu descanso para me restaurar para o serviço? Nomeadamente, deixando-me cuidar por outros?
