L 1 Dn 6, 12-28; Sl Dn 3, 68.69. 70. 71. 72. 73. 74; Ev Lc 21, 20-28
Mais do que alarmismos diante do fim dos tempos que a Liturgia nos permite vislumbrar, podemos atender ao modo como Jesus quer que caminhemos para lá. Em situações adversas, o convite de Jesus no Evangelho é que peregrinemos pelos campos (“per agros”) até aos montes da oração. É o que podemos contemplar nas suas palavras: os que estiverem na Judeia fujam para os montes; os que esrtiverem dentro da cidade saiam para os campos e os que estiverem ali não entrem na cidade. Os campos e os montes são apontados por Jesus como alternativos de uma cidade (Jerusalém) que está para ser devastada e de uma Judeia que não reconheceu o seu Salvador. O Papa Francisco disse numa ocasião que só poderemos sair dos “labirintos” da vida olhando para cima. É por isso que Jesus nos convida a erguermo-nos e a levantar a cabeça!
O escritor Byung Chul-Han, nas “Conversas sobre Deus” (Relógio d’Água, 2025), chama a atenção para o contraste entre dois tipos de perceção ─ um que tem origem na cidade “devastada” e outro que tem origem no campo e nos montes:
- A perceção que se tornou extremamente voraz, desprovida de qualquer amplitude contemplativa, que come constantemente, que tem o consumo como a sua atitude básica, devorada por estímulos e vícios, ocupada a comer já não consegue ver. A perceção quase fica empanturrada com lixo informativo e comunicativo, com lixo sonoro e visual. Transformamo-nos em gado de consumo. Assim, a nossa percepção leva a habitar na indiferença ao que é essencial e determinante para a salvação.
- Alternativamente, propõe o restauro da atenção, que entrou em declínio. Existem razões estruturais das quais não temos consciênica e que são responsáveis pela aparente ausência de Deus. A crise de religião é também uma crise de atenção, uma crise de visão e de audição. Não é Deus que está morto, mas o homem a quem Deus Se revelou.
E cita Simone Weil, que diz: “aqui neste mundo, olhar e comer são duas coisas diferentes. É preciso escolher uma ou outra. (…) Só têm alguma esperança de salvação aqueles a quem por vezes acontece ficarem algum tempo a olhar em vez de comer.” Comer apenas satisfaz necessidades. Só olhar nos liberta da imanência sem sentido do consumo.
Jesus propõe-nos também a nós, ao aproximarmo-nos do tempo de Advento que aprimoremos a nossa capacidade de estar atentos, convidando-nos a peregrinar, a ir para o “campo” da simplicidade e para os “montes” da oração. Quer-se dizer, longe daqules estímulos que nos impedem de ver a estrela que nos guia para a Presença essencial. Na Quaresma, a consciência cristã informa-nos que devemos jejuar fisicamente. No Advento podemos adotar o “jejum da alma”. Segundo o autor acima citado, apenas a alma que jejua pode ver. Ao jejuar, ela desencadeia uma autofagia que destrói a sua parte inferior e voraz. Só esta autofagia da alma nos salva e conduz até Deus: “A parte eterna da alma alimenta-se de fome. Quando não comemos, o organismo digere a sua própria carne e transforma-a em energia. Passa-se o mesmo com a alma. A alma que não come digere-se a si própria. A parte eterna digere a parte mortal e transforma-a. A fome da alma é difícil de suportar, mas não há outro tratamento para a doença. Fazer morrer de fome a parte perecível da alma, com o corpo ainda vivo.”»
É muito importante trabalharmos sobre nós mesmos e deixarmos que o Espírito Santo nos ilumine, no sentido de nos ajudar a ver bem a partir do interior da alma. Não vá acontecer com a vida espiritual (“segundo o Espírito de Deus”) o que acontece com os presentes em massa vindos das fábricas que os colcoam no mercado. A vida espiritual cristã não nos deveria fazer iguais aos oturos, mas originais que vivem a comunhão na comunidade e a partir dela, por um caminho de testemunho da fraternidade e da paz.
Afastados de tudo aquilo que nos distrai e “empanturra” a alma, então poderemos ver «o Filho do homem vir sobre uma nuvem, com grande poder e glória». O Filho do homem revela-nos o seu poder e a sua glória se Lhe dermos a nossa atenção. Só assim é que iniciará ou avançará o nosso processo de libertação “que está próxima” não só temporalmente, mas também espacialmente, porquanto tem o seu ponto inicial no interior de cada um dos nossos corações.
Aquela “nuvem” que Jesus diz que virá faz-nos lembrar aquela nuvem que o servo de Elias vislumbrou enquanto o profeta estava a rezar no cimo do monte Horeb, como antecipação de uma chuva abundante. Para a podermos vislumbrar também hoje, precisamos de associar a humildade da oração à ousadia de olhar, fora dos lugares confusos, que são as “teologias complicadas” (como dizia o Papa Francisco) e os mercados de hiperestimulação. Precisamos de “servos do Deus vivo” como Daniel, assim ousados e firmes, confiantes que Deus os livre dos “leões” de hoje, manipulados pelos “donos” de hoje.
Uma alma empanturrada poderá considerar que “o poder e a glória” do Filho do homem seja tirania, domínio e esclusividade, em vez de serviço e humildade. É preciso dar mais atenção a quem Jesus é e à forma como Ele se apresenta diante da humandiade e a serve. É Ele que nos permite desvelar o mistério da nossa vida enquanto caminhamos com Ele.
