navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Jn 3, 1-10; Sl 129 (130), 1-2. 3-4ab. 7-8; Ev Lc 1,26-38, na memória da Virgem Santa Maria do Rosário

Escutar, hoje, o episódio da vocação de Jonas à luz do Evangelho da Anunciação, deu-me um certo arrepio. A Maria, o Anjo diz da parte do Anjo «Ave, cheia de graça, o Senhor está contigo». De Nínive é dito que «era uma grande cidade aos olhos de Deus; levava três dias a atravessar». O apreço de Deus por Jonas correspondia ao apreço de Deus por Nínive; o apreço de Deus por Maria traduz o apreço de Deus pela humanidade inteira. É curioso poder constatar que o apreço vocacional de Deus por cada um de nós corresponde ao apreço d’Ele pela porção de humanidade à qual nos chamar a servir. Há aqui uma espécie de “artesanato” feito de um filão que atravessa as gerações e as contas nesse filão metidas que representam cada ser humano convocado para a missão.

Também a oração do rosário é a oração mais “artesanal” que se conhece. Até que tenha sido formalizada pelo Papa Pio V no séc. XVI ─ instituindo a Festa de Nossa Senhora do Rosário a 7 de outubro, após a vitória da batalha de Lepanto, atribuída à intercessão mariana ─, as origens medievais (séculos X-XII) desta oração mostram como os mistérios da vida de Cristo contidos no Evangelho apanharam “boleia” de contas de pedra ou de coroas de rosas para possibilitar aos pobres ou a monges simples a oração em modo de saltério.

O rosário é a oração em que a Palavra e o instrumento se misturam, entre as vozes e as mãos, para se continuar a desvelar a compreensão do mistério de Cristo. Por outro lado, a oração de Pai-Nossos e Avé-Marias, recitados em língua vernácula, formaram a oração mais inclusiva que se conhece, não conhecendo limites circunstanciais ou geográficos. Para além de ajudar a ultrapassar batalhas e guerras, serviu para combater heresias (S. Domingos de Gusmão, séc. XIII), para reunir famílias e aproximar os desavindos. João Paulo II (2002), acrescentou-lhe os mistérios luminosos da vida pública de Jesus.

Experiências científicas recentes atestam, também, que a oração do Terço ajuda a superar batalhas interiores, fazendo bem à saúde, uma prática que modula o corpo, acalma a mente e protege o coração, trazendo a sensação de paz interior, regulando a respiração, reduzindo a frequência cardíaca, ativando o sistema nervoso parassimpático responsável por restaurar e equilibrar o organismo, reduz a variabilidade da frequência respiratória, reduzindo a ansiedade, ativando áreas cerebrais ligadas à empatia, gratidão e autorreflexão, favorecendo o controlo do stresse e melhorando a regulação emocional, faz cair os níveis do cortisol e aumento de marcadores relacionados com a imunidade e ao bem-estar. Sobretudo nos idosos, diminui a incidência da depressão e declínio cognitivo. Porque rezar o Terço envolve a memória, a coordenação, ritmo, intenção e fé. É uma prática espiritual, mas também neuro-funcional. Desacelera o coração e o cérebro a reorganizar-se. É espiritualidade com impacto clínico mensurável. É um encontro com o sagrado e também um reencontro com a saúde integral. Corpo, mente e alma unem-se num gesto simples que repetido com fé e constância fortalece por dentro e por fora. (Já vi em tempo real a recitação do Terço curar mais os males obscuros do que orações canónicas especializadas…)

No Evangelho da leitura corrente, hoje, contemplamos um dos mistérios gozosos ─ a Anunciação ─ que constituiu como a fundação verdadeira da oração da “Avé-Maria”. Não nos será fácil descrever as emoções e os sentimentos com que a jovem Maria viveu aquele momento, mas tão somente o diálogo com o Arcanjo de Deus e a resposta, assim como a consequência imediata desta resposta favorável ao projeto de Deus. A nossa experiência de rezar o Terço quotidianamente, porém, diante dos desafios da fé em conexão com a realidade do mundo em que vivemos, na nossa própria experiência pessoal podemos intuir o que Maria viveu. A oração do terço pode constituir, de facto, um espaço relacional artesanal, onde algo de novo acontece na mistura do amor de Deus com as nossas dúvidas e angústias. Como se o amor de Deus fosse o cordel onde vamos colocando as contas do nosso viver quotidiano.

A oração do Terço facilita uma boa integração psicoespiritual da pessoa crente, tendo em conta que (in)forma e envolve os afetos ao mesmo tempo.