L 1 Sir 3, 19-21. 30-31 (gr. 17-18.20.28-29); Sl 67 (68), 4-5ac. 6-7ab. 10-11 L 2 Heb 12, 18-19. 22-24a Ev Lc 14, 1. 7-14, no XXII Domingo do Tempo Comum (C). Reflexão em parte inspirada em Ermes Ronchi.
Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado ─ é uma afirmação daquelas que fica semeada na cultura sem questionamentos teóricos de maior. Porém, na prática, nem sempre a vida concreta nos permite ver, com evidência, atitudes correspondentes com esta máxima da sabedoria cristã. E, por vezes, é por falsa humildade que as pessoas se colocam atrás, com medo de se envolverem nos desafios difíceis da vida social. Jesus frequentou os dois tipos de mesas: a dos que precisavam de usufruir da justiça e a dos que precisavam de a aprender a fazer. E saiu-Se bem, a favor de todos!
É preciso notar-se: no ser convidados, não há nenhuma discriminação por parte do Senhor. O convite é para todos. No fundo, trata-se de aprender a responder aos convites, entre a escuta da Palavra e a comunhão mais profunda com Deus e com os irmãos. Foi o que Lhe aconteceu a Ele: apesar das suas afrontas com os fariseus, não deixou de ser convidado pelos principais fariseus a tomar refeições em suas casas. E esta era a terceira vez. Jesus gostava muito de aproveitar as refeições para as transformar em “banquetes” de boa nova. Para Jesus os banquetes eram oportunidades para antecipar a mensagem e a vivência do Reino de Deus.
Para Jesus, a verdadeira Eucaristia da (que dá a) vida conjuga-se entre as duas mesas: a da casa comum da comunidade e a mesa da casa de cada um. A doutrina social da Igreja tem no encaixe coerente ou na correspondência destas duas “mesas” a sua prova de veracidade metafísica. A dignidade da mesa de minha casa dependerá como considero a mesa da casa dos outros. E a mesa da casa comum é critério de avaliação feita pela Fonte de todos os bens.
Na parábola, a atenção de Jesus vai para a forma como os convidados escolhiam os lugares. Sim, os lugares em relação à única “mesa” da vida: é neste cruzamento de relações que se mapeia o sentido da vida cristã. Esta atenção faz-nos refletir como, também hoje e por vezes, se dá mais atenção aos pódios à volta dos bens que saciam a vida terrena do que à fonte de todos os bens, que o Criador dispôs para todos. Esta está aberta para todos; já, dos pódios… muitos são descartados, em vez de convidados.
A escolha do último lugar não é um convite ao masoquismo, nem a uma baixa-estima, mas para nos abrirmos a um modo diverso de relação, de criatividade na relação, entre o considerar os outros e deixar-se ser considerados. Sim, deveríamos jogar mais a vida no que toca à recíproca consideração entre as pessoas. Não para pagar favores, mas para aprender a amar e a deixar-se amar só porque sim, sem exclusão de ninguém. E o jogo começa quando estão todos dentro.
Como nos inspira Fabio Rossini (em “A arte de curar”), também pode acontecer uma auto-sabotagem que tem que ver com a forma de gerir o medo, o verdadeiro contrário do amor. E a forma como nos relacionamos com os outros é um verdadeiro banco de prova quando ao lugar que ocupamos na ética do amor cristão. É que a mesa definitiva, do Reino de Deus, após ser transposta aquela porta estreita, não é feita de “manjares sensíveis” mas uma “assembleia de primogénitos inscritos no céu”.
Como a rosa que perfuma o monte que ninguém visita existe porque sim, como o canto bonito de um pássaro que ninguém escuta, como a pregação profunda de um monge que ninguém escuta… deverá ser a nossa consideração pelos outros: de uma ternura gratuita. Só o amor que não precisa de pagamento é que poderá encher de esperança o relacionamento humano e de preencher de luz os cantos mais sombrios da nossa existência. O convite a quem não tem nada para nos dar é a medida daquela “porta estreita” do Reino de Deus de que Jesus nos falava há oito dias. O Papa Francisco costumava dizer: a ajuda desinteressada ao pobre é um passaporte para o Céu.
Portanto, pela verdadeira humildade de se saber ocupar o próprio lugar aprendemos a ser considerados pelos outros; e, também, aprendemos a considerar os outros como devemos considerá-los: portadores de uma dignidade infinita. A humildade verdadeira tem dois extremos onde se perde: a autossabotagem e a desconsideração dos outros. A sua existência, como qualidade de vida humana e cristã, implica o equilíbrio: aguardar com confiança e paciência que os outros nos considerem (ser “último”) e dar a própria atenção aos últimos.
