navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 At 6, 8-15; Sl 118 (119), 23-24. 26-27. 29-30 Ev Jo 6, 22-29. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.

O evangelista João, que é essencialmente teológico, serve-se dos acontecimentos e da narrativa de hoje para nos ajudar a aprofundar o sentido do seguimento de Jesus.

A multidão segue Jesus por meras curiosidade e comodidade, pois a admiração que sentem por Jesus é consequente ao milagre que lhes traz um pão fácil. Um seguimento assim acaba por ser ineficaz.

O seguimento que Jesus pretende não assenta na simples curiosidade, nem no egoísmo interessado pelo pão material, nem no sensacionalismo orientado para as coisas terrenas, mas para a busca do pão imperecível.

Entenda-se aqui a diferença entre pães e “pão, depois de o Senhor ter dado graças”. No tempo de Jesus, era corrente os mestres religiosos darem aos seus discípulos uma dupla possibilidade de escolha entre o pão que alimenta a vida física-terrena e o pão que garante a posse da vida eterna. Este pão seria a vida obediente, segundo Deus, a qual teria como consequência um juízo favorável no último dia e, como prémio, a vida eterna. Isso ajuda a explicar o tema das “obras de Deus” que é preciso praticar, que aqui servem para falar das obras da fé.

A obra que o homem é chamado a realizar é a submissão ou aceitação da obra de Deus que é Cristo. Nem se trata de “obras” como os “pães”, mas da Obra da Fé. É esta obediência que permite a Estêvão incarnar a sabedoria do Espírito Santo patente nas suas palavras e forma de entrega a Deus, às quais os seus adversários não conseguem resistir. Só mesmo com falsos testemunhos é que o conseguem levar a julgamento.

A palavra de hoje faz-me refletir que podemos ser discípulos de Cristo que fazem obras que atraem pela curiosidade e interesses pessoais e ser discípulos-missionários que fazem da sua vida pessoal uma obra de Deus, assente na fé, na esperança da vida eterna e na caridade. Na sua mensagem para o 62º Dia Mundial de Oração pelas Vocações, o saudoso Papa Francisco convida os jovens, como o “agora de Deus” que são a “tomar consciência de que o dom da vida exige uma resposta generosa e fiel”, como os “jovens santos e beatos que responderam com alegria à chamada do Senhor”.

Na leitura “fora da caixa” que estou a fazer dentro do plano de leitura a partir de O Papel da Literatura na Educação do Papa Francisco, Deus da escuridão, de Valter Hugo Mãe, o sétimo capítulo (Íamos para fora da infância) fez-me refletir na liturgia da Palavra deste dia de outro modo. Refletia-se acima da relação entre um assumir um seguimento por mera curiosidade e comodidade a um reconhecimento e acolhimento da obra de Deus em Cristo. Naquele capítulo do romance de Valter Hugo Mãe, vejo em confronto o Batismo necessário para proteção de uma criança, quase por superstição e melhor agouro, e o “despedimento” dos planos das amizades da infância do irmão que cresce cada vez com mais responsabilidades no trabalho para a sobrevivência da família.