navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Sir 1, 1-10; Sl 92 (93), \1ab. 1c-2. 5 Ev Mc 9, 14-29

Hoje, o Evangelho mostra-nos um pai em dificuldade por causa de um filho com uma doença naquele tempo desconhecida. Segundo os biblistas de hoje, seria uma epilepsia. Mas naquele tempo, pela discussão que estava a acontecer entre os discípulos de Jesus e os escribas, a presunção humana impunha-se a qualquer diagnóstico que pudesse chegar a uma cura razoável. Daí que, logo que Jesus ─ que vinha com Pedro, Tiago e João do monte da Transfiguração ─ chegou ao pé deles perguntando sobre o motivo da discussão, imediatamente aquele pai lhe declarou “Mestre, eu trouxe-Te o meu filho, que tem um espírito mudo…”.

Aquele pai, ao sair de casa, já sentiria a necessidade de que o problema fosse resolvido por Jesus, não só pelo seu filho, mas também por causa de si próprio na relação com o seu filho. Cá para nós: quando vamos ao médico é-nos fácil falar de sintomas externos, do corpo, mas não é tão fácil falar sobre coisas íntimas com qualquer um. Preferimos reservar os problemas íntimos para um padre ou algum amigo espiritual que nos possa ajudar.

A interjeição de Jesus “Oh geração incrédula! Até quando…” põe a claro quer a incredulidade dos discípulos, quer a presunção dos escribas. Na verdade, situações como esta não pedem discussões, mas a oração. E vai direto ao centro das atenções, pedindo que Lhe levassem o menino. Aqui já podemos entrever o princípio de toda a oração de libertação: levar os doentes a Jesus. Diante de Jesus, todos os nossos males, levados com humildade e confiança encontram-se com a pedagogia da ternura, como nos garante o Papa Francisco no n. 2 da Carta apostólica Patris corde:

O Maligno faz-nos olhar para a nossa fragilidade com um juízo negativo, ao passo que o Espírito trá-la à luz com ternura. A ternura é a melhor forma para tocar o que há de frágil em nós. Muitas vezes o dedo em riste e o juízo que fazemos a respeito dos outros são sinal da incapacidade de acolher dentro de nós mesmos a nossa própria fraqueza, a nossa fragilidade. Só a ternura nos salvará da obra do Acusador (cf. Ap 12, 10). Por isso, é importante encontrar a Misericórdia de Deus, especialmente no sacramento da Reconciliação, fazendo uma experiência de verdade e ternura. Paradoxalmente, também o Maligno pode dizer-nos a verdade, mas, se o faz, é para nos condenar. Entretanto nós sabemos que a Verdade vinda de Deus não nos condena, mas acolhe-nos, abraça-nos, ampara-nos, perdoa-nos.

Jesus, diante do mal que nos acontece não discute, mas dialoga com ternura. Interessa-se com a longevidade da doença, para não intimidar aquele pai diante da multidão as causas mais profundas da mesma. É aquele pai aflito, por sua vez, com coragem e humildade, por um lado, assume livremente que tem “pouca fé”. Por outro, que também ele próprio precisa de ajuda, este outro aspeto do relato que não é claro e que psicopedagogos atuais nos ajudam a interpretar:

No seu pequeno livro Impulsos espirituais para curar as feridas da infância. Sugestões espirituais, AnselmGrün e Maria-M. Robben sugerem que o capítulo nono do Evangelho segundo Marcos se dedica à cura da relação pai-filho. Sem culpar o pai de tal possessão, quer analisar-se tal relação que por vezes é falida: o pai diz que o filho está possesso por um espírito impuro; por sua parte, o filho não emite nenhum som, mas manifesta-se de muitas outras maneiras (ficando rígido e espumando…). Na verdade, na relação com o pai, não encontrou espaço para falar de si e dos próprios sentimentos. Entre os dois há uma ausência total de comunicação. Não têm mais nada para se dizerem. Talvez a mudez do filho nos reenvie para uma mudez do pai, uma vez que talvez o pai também não tenha conseguido nunca emitir os seus sentimentos reais, mas apenas descrever os sinais da doença do filho.

Aqueles autores psicopedagogos sugerem que, frequentemente, a cura de alguém como um filho pode implicar a cura do pai (o mesmo se pode considerar entre uma filha e a própria mãe), o que permitirá a cura da relação entre ambos. Naquele cenário, podemos olhar para o fogo para o qual as forças do mal atiram o filho como se se tratasse a paixão, a sexualidade, a agressividade; e a água como símbolo do inconsciente em que ficam “arquivadas” todas as forças que “falam” sem palavras, mas com sintomas físicos que acabam por declarar o que existiu ou não existiu no crescimento de um filho. É curioso que aquele pai não peça a cura só para o seu filho: «Mas se podes fazer alguma coisa, tem compaixão de nós e socorre-nos». Pede para a relação recíproca.

A declaração de Jesus “Se posso?… Tudo é possível a quem acredita”, por um lado, sugere àquele pai que também ele pode, desde a fé no Pai do céu, curar o filho a partir de uma nova relação com ele. Este filho levanta-se, apoiado pela mão de Jesus e, também, no descanso de uma nova relação com o pai. Aos discípulos diz o mesmo: não se pode curar estas doenças a não ser pela oração.

Trago para a oração a notícia do contexto do 3º aniversário do início da invasão da Ucrânia pela Rússia, a 24 de fevereiro. Recordam-se os três anos de bombardeios, ataques quase diários com mísseis e drones contra estruturas civis, que não obstante o número de vítimas e a grande destruição, não tirou da população ucraniana o desejo de lutar por sua liberdade e autodeterminação. A Rádio Vaticano/Vatican News entrevistou o bispo auxiliar da Diocese católica romana de Kiev-Zhytomyr, D. Oleksandr Yazlovetskiy, que declarou:

Antes de tudo, com um sentimento de grande gratidão a Deus pelo fato de que, não obstante os três anos de invasão por parte do maior país do mundo – porque a Rússia ocupa cerca de 11% do território da Terra – ainda existimos como nação; existem a nossa língua e nossa cultura. Sentimos essa gratidão, porque vemos que Deus está nos ajudando, vemos que a oração dá frutos. Muitos cristãos rezam por nós. O Santo Padre reza por nós e vemos que Deus ouve essas orações e vem em nosso auxílio. Nossos fiéis viveram esses três anos depositando sua esperança no Senhor que é o Rei da paz.

E em mensagem aos católicos do mundo todo no contexto deste triste aniversário declara:

Se falamos de católicos, presume-se que eles sejam crentes, por isso gostaria somente de ressaltar que devemos estar cientes de que esta não é apenas uma simples guerra: esta é outra tentativa do diabo de iniciar a terceira guerra mundial. A guerra sempre traz morte, dor, sofrimento, ódio, injustiça e muitos pecados. O diabo espera uma “ampla colheita”. Somente pessoas de oração e paz podem parar esta guerra. Por isso, o meu apelo, de modo especial agora – quando se fala tanto de paz e os primeiros passos para estabelecer essa paz já foram dados – é o de fortalecer a nossa oração, porque não se trata apenas da paz na Ucrânia, mas também da paz em todos os países europeus e no mundo inteiro.

Hoje rezo para que as relações interpessoais nas famílias sejam de comunicação com ternura, não deixando que as forças do mal falem mais alto. Rezo, também, pela paz nos países em guerra, para que a presunção dos países com mais território e mais ricos saibam respeitar os direitos fundamentais dos países mais pobres. Oremos, irmãos.


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