L 1 Gn 4, 1-15. 25; Sl 49 (50), 1 e 8. 16bc-17. 20-21 Ev Mc 8, 11-13. Reflexão inspirada em parte em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007. O itálico é das admonições da Liturgia.
Hoje trago uma crónica sobre «Os equívocos do chamado “sionismo cristão”». Descreve, sob o ponto de vista do autor, uma má teologia que deriva numa má política. Descreve como no final de Agosto de 2006, quatro dirigentes das principais Igrejas cristãs em Jerusalém publicaram uma Declaração sobre o Sionismo Cristão, denunciando-o como “ensino errado, que corrompe a mensagem bíblica de amor, justiça e reconciliação. Na sua forma extrema, ele põe a ênfase em acontecimentos apocalípticos conduzindo ao fim da História, em vez da vivência actual do amor de Cristo e da justiça.” A crónica constata como muitas igrejas, leitores e os líderes de grandes potências, como é o caso dos EUA, fazem leituras políticas imediatistas dos testos apocalípticos vendo nas guerras do Médio Oriente sinais do iminente “fim dos tempos” em em Israel o seu protagonista eleito. Diz-se, ainda: “Como muitos cristãos americanos, ele [um dos mais altos líderes] crê que Deus estará do lado de Israel nessa batalha final e, portanto, que os inimigos deste país estarão do lado do Anticristo. Assim sendo, ele apoiará Israel sem hesitação, porque está intimamente convencido de que, quando chegar o fim dos tempos, é preciso estar do lado de Israel”.
Nada de novo sobre esta terra! Esta crónica ajuda-me a reler a página do Livro do Génesis hoje proclamada, na qual entram em confronto Caim e Abel diante de Deus, a má ação de Caim e a superação em Set. O que esta narrativa nos mostra é que há várias atividades desenvolvidas pelos seres humanos e várias formas de fazer tributo a Deus. E, também, várias formas de entender ou ignorar a forma misteriosa do agir de Deus em relação aos homens, que somos chamados a perscrutar com reverência. A diferença desta página em relação ao pecado de Adão e Eva é que neste existe a influência de um fator externo ─ a serpente. No caso de Caim, os fatores que o influenciam a matar o seu irmão são, sobretudo, de ordem interna, da sua forma enviesada de interpretar os sinais que desvelam a atitude de Deus diante dos esforços do homem. O pecado de Caim, para além de ser rebelião contra a ordem misteriosa de Deus no mundo, é pecado de destruição do homem, do não reconhecimento do irmão como alguém que é preciso guardar. Enfim, é, também, o não reconhecimento da bênção inicial que paira sobre a própria vida (na verdade, Caim tinha sido uma bênção de fecundidade para seus pais).
Nestas narrativas, entram em contraste não só as tendências humanas, nem só as profissões, mas também as condições em que os seres humanos vivem, fruto da precariedade causada pelo pecado original. Por exemplo: para que uns possam viver uma vida sedentária, outros têm que viver uma vida nómada. Paradoxalmente, Caim sai no caminho da errância com um sinal de que ninguém o deve matar. Ao mesmo tempo, como início de uma humanidade plural, com o desenvolvimento da técnica e portador de um poder humano tentador que se apresenta como o reino da violência que se auto-destrói.
Os fariseus aparecem, geralmente, no Evangelho, como seita de gente conservadora (de ideias e posturas), incapaz de se abrir à novidade da mensagem de Jesus: por isso, sempre O espiam, O julgam e O condenam. Hoje pedem-lhe um “sinal do Céu”, um sinal espectacular; mas Jesus não pretende causar impressão por meio de atitudes espectaculares ou pela propaganda consumista. O que Ele quer é a fé, e esta só pode andar ligada à boa intenção e à caridade.
No deserto da vida em que, por vezes, nos sentimos errantes, somos convidados a três atitudes fundamentais:
1) A Deus devemos adorar. Um sério cuidado na interpretação dos sinais de Deus a nosso respeito. Nos textos que temos vindo a proclamar, no confronto com o ser humano, Deus foi sempre dialogante e compassivo, abrindo as portas à novidade fecunda da vida, lá onde as trevas e a iniquidade pareciam impor um fim. Uma interpretação aberta ao mistério e grata por aquilo que nos acontece, confiando que Deus nunca estará distante, mas com uma presença que assiste.
2) Ao ser humano devemos cuidar. Uma grande abertura a todos os seres humanos considerados como irmãos, sentindo-nos sempre implicados no que lhes acontece e procurando guardá-los, sem nos sentirmos superiores nem inferiores. Costumo dizer que comparações entre pessoas são sempre demoníacas. Eu só tenho autoridade para me comparar com as minhas próprias versões entre o ontem e o amanhã, no confronto do hoje em que posso melhorar a minha atitude para com Deus e para com o meu irmão.
3) É o mal que somos chamados juntos a combater, para correspondermos aos desígnios do Deus Criador e Redentor sobre a humanidade criada à sua imagem e semelhança e sobre uma existência com sentido de infinito amor.
A presença de Jesus na humanidade é prefigurada por Set, que, por sua vez, terá um filho chamado Enos, o homem. Em Jesus, Filho de Deus e filho do Homem, constatamos a superação definitiva de todas as formas de violência, abrindo-se o caminho do Reino que é só de justiça, de fraternidade e de paz universais.
De igual modo declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e económicos mundanos e míopes.
─ PAPA FRANCISCO E AL-AZHAR AL-SHARIF, Documento sobre a Fraternidade Humana
Hoje rezo a partir do Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum: para que se deixe de instrumentalizar as religiões para incitar o ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e se deixe de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Com o Santo Padre e o Imame muçulmano “Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência”. Uma vez que, “com efeito Deus, o Todo-Poderoso, não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas”.
Rezo, também, para que o excesso de zelo nas coisas religiosas (por vezes fundamentado por uma espiritualismo desencarnado) não nos leve a resvalar na indiferença para com os irmãos, nem o ativismo assistencialista (muitas vezes, apoiando-se mais em fins lucrativos do que no próprio bem das pessoas) nos leve a esquecer o horizonte da vida eterna que só em Deus podemos encontrar. Para que reconheçamos que a filiação divina e a fraternidade humana são as duas bases fundamentais para uma humanidade resolvida e salva pela glória de Deus, necessitando que o ser humano lute unanimemente contra o mal que o fere e, por vezes, o habita.
Por estas intenções, oremos, irmãos.
