L 1 Dt 6, 2-6; Sl 17 (18), 2-3. 4 e 47. 50-51ab L 2 Heb 7, 23-28 Ev Mc 12, 28b-34, no XXXI Domingo do Tempo Comum (B); Início da Semana de Oração pelos Seminários
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(escala do mandamento do amor)
Hoje podemos cantar como Marco Paulo, o cantor português que nos deixou no passado dia 24 de outubro: “eu tenho dois amores”. Quais são, na perspetiva deste Domingo? É Jesus Quem nos diz: a Deus e ao próximo. A partir da perspetiva de Cristo são inseparáveis. Mas para que estes “dois amores” sejam inseparáveis e complementares na vida do cristão, é preciso regressar ao “mandamento zero”: “escuta, Israel”. Este “credo” judeu é proposto, pois, por Jesus como um passo atrás para que cada discípulo leve em consideração o modo como Deus nos propõe a ordem do amor.
Nas entrelinhas da leitura orante desta liturgia da Palavra, reparamos que há uma “escala do mandamento do amor” com a qual Jesus nos ensina a pautar a nossa inseparável relação com Deus e com os irmãos. Na resposta ao escriba, afirma que “não há nenhum mandamento maior que estes”, juntando de uma vez por todas o que é dito em Lv 19,18 (“Amarás o teu próximo como a ti mesmo”) com o que é dito em Dt 6,4-5 (“Escuta… Amarás…”).
Os preceitos proclamados pelas autoridades religiosas judaicas, com as quais Jesus teve de Se confrontar às portas de Jerusalém, insistiam num estilo de relação com Deus que prejudicava ou era indiferente à relação com os irmãos: 613 leis que eram subdivididas em 365 “proibições” e 248 “obrigações”. Não havia espaço, por assim dizer, a “relações”, mas a “murmurações”. O legalismo e a rigidez dava espaço a “meias verdades” que subjugavam as pessoas a um estatuto de inferioridade e de uma autohumilhação exagerada, que dificulta a capacidade de um relacionamento sereno e proativo com Deus e com os outros.
Lendo melhor, há a impressão de que Jesus, na resposta ao escriba, não quis regressar ao versículo 2 de Dt 4, onde se lê: “temerás o Senhor, teu Deus…”. Não que o temor não seja importante, mas levou a que a vida se traduzisse por uma relação de filhos-pai tirano. Ao invés, Jesus proclama “Amarás…”. Com isto, quis dizer que o que dá futuro à vida e às relações é o Amor e não, meramente, o temor. O que se deve temer é de que, no meio da vida e das relações, aconteça o mal; o que se deve amar são a vida e as pessoas. O temor seria o mandamento -1, que pode não fazer mal, mas também não incentiva afetivamente ao bem. Jesus convida a uma escuta filial, o tal “mandamento zero” que pode facilitar o recomeço, tendo em vista o mandamento 1 e 2 num só.
A partir da segunda leitura de hoje, podemos compreender que Jesus é o “Sacerdote eterno” que nos convinha, aquele que não precisa de repetir sacrifícios como os sacerdotes da antiga aliança. Na nova aliança, mais do que holocaustos e sacrifícios vale a caridade, que é expressão do amor de Deus na nossa vida e na vida de todos.
