L 1 Gl 3, 1-5; Sl Lc 1, 69-70. 71-72. 73-75 Ev Lc 11, 5-13
O Evangelho de hoje, na sequência do ensinamento sobre o Pai Nosso, mostra-nos que esta oração divina ─ se for rezada e vivida como relação, a partir das chaves da humildade diante de Deus e da solidariedade para os outros, da intimidade à fraternidade ─ transforma-se numa “máquina escavadora dos túneis” da vontade.
Quem se atreve a ser humilde e a ser solidário habilita-se a uma bom plafom daquela parresia (liberdade de dizer tudo) ou teimosia (liberdade de fazer tudo) o que é permitido no Reino de Deus, o que é permitido ou lícito em momentos de necessidade grave, não meramente por causa de nós mesmos, mas por causa do serviço urgente aos outros, como nos conta o relato de Jesus.
No caminho do Reino de Deus, quer dizer, no caminho que vai da intimidade com Deus à solidariedade fraterna, a insistência é amiga da urgência. “Porque quem pede recebe; quem procura encontra e a quem bate à porta, abrir-se-á”. Segundo a experiência de Jesus, Deus Pai é capaz de dar imensamente mais do que são capazes de dar os pais da terra, porque dá tudo, quer dizer o seu Amor que é o Espírito Santo. Conforme rezamos a Deus na Oração Colecta: “na abundância do vosso amor, cumulais de bens os que Vos imploram, muito além dos seus méritos e desejos”.
Na Oração Depois da Comunhão, rezamos: “Deus todo-poderoso, que neste sacramento saciais a nossa fome e a nossa sede, fazei que, ao comungarmos o Corpo e o Sangue do vosso Filho, nos transformemos n’Aquele que recebemos”. O que significarão estas palavras, senão a confirmação de Paulo de que somos salvos pela fé em Cristo e é d’Ele que recebemos “graça sobre graça”, independentemente dos nossos méritos e desejos?
O contrário da “insistência” do Reino sugerida por Jesus é a “insensatez” dos Gálatas. No meu modo humilde de ver, Paulo denuncia aos Gálatas o facto de quererem resolver os problemas daquele tempo com as soluções de outrora. Talvez os discípulos a quem Paulo pregou da sabedoria e da glória que está na Cruz de Cristo tenham ficado confusos com o encontro/desencontro de Paulo com Pedro e Tiago. Aconteceu com eles aquilo que hoje acontece com muitos párocos no contexto das dioceses: divisão de tarefas (um prega aos judeus e outro aos gentios), que muitas vezes significa divisão de corações e não comunhão na diversidade.
A consideração dos dons do Espírito ali mesmo à frente deles em abundância e eles presos às obras da lei. Paulo põe diante dos seus olhos a balança do cumprimento das obras da lei e a escuta da mensagem da fé.
As manifestações do Espírito Santo são fruto da fé em Cristo. Pois é de Cristo que nos vem a salvação. Todos nós, interior e exteriormente, teremos de lidar com este drama que é a balança entre o que Deus me apresenta como uma possibilidade e um meu modo de fazer assente nos hábitos aprendidos. Também assim é a vocação presbiteral: uma síntese entre o dado e o obtido, quer dizer, entre a minha forma de viver a fé aprendida dos pais e catequistas no contexto de uma comunidade concreta e os valores da vocação presbiteral conforme a Igreja os apresenta em cada tempo.
Para que a ninguém, no tempo da provação não falte o Pão da Eucaristia, o qual a Igreja precisa de ser “acordada” para o dar a quem precisa neste tempo de urgência e de acolhimento dos migrantes e refugiados.

