navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Cor 5, 1-8; Sl 5, 5-6a. 6b-7. 12 Ev Lc 6, 6-11 ─ Aos seminaristas no início do novo ano formativo 2024-2025

Estamos juntos diante do grande modelo de formação que é Jesus Cristo. É a Ele que somos chamados a configurar-nos. E o formador é o seu Espírito Santo. E o horizonte é o Pai. É como rezamos na oração Colecta desta semana: “pela fé em Cristo, alcançarmos a verdadeira liberdade e a herança eterna”.

Toda a liturgia terrena aponta para o Dia do Senhor, aquele dia em que O veremos face a face e também nos veremos como Ele nos quer ver. Para isso, teremos de não ter medo de, também, empreender a superação do sábado, já que a nossa vocação se define como a síntese o que somos e o que Jesus nos convida a ser (e no que toca à vida presbiteral, a síntese entre a vida cristã e os valores do sacerdócio ministerial diocesano). Na vida daqueles que defendiam o sábado, as palavras não eram confirmadas pelas boas obras. Só em Jesus é que podemos descobrir que as boas obras confirmam a sua Palavra. Para os que seguem Jesus e se deixam configurar com Ele, a humildade de coração é condição necessária para que a palavra de Deus lance raízes neles, traduzindo-se na intenção reta e em bons comportamentos.

É para isso que aqui estamos. É por aqui que se desenha o itinerário vocacional de cada seminarista, vivido entre a intimidade com o Senhor e num estilo de vida comunitária. Para que este itinerário siga adiante, existe a convergência de dimensões, conteúdos e agentes formativos diversos. Estão aqui patentes dois tipos de comunidades: a dos seminaristas e a dos formadores, numa só grande comunidade formativa, onde estão bem representadas cada uma das nossas dioceses, de onde partimos e aonde seremos enviados.

O que aqui o Senhor, na Igreja e pela Igreja, nos quer fazer experimentar é um salto de qualidade que só Ele nos permite fazer. É um grande salto aquele que cada um de vós se propõe fazer até àquele dia que é o das Ordens Sacras. Esse salto implica que sejam dados pequenos saltos, no dia-a-dia e de ano-a-ano. Nas Ordenações em que participámos referi, em tempo dos grandes campeonatos de futebol, que cada Ordenação diaconal ou presbiteral é, para os formadores, o “golo” sonhado e esperado na “baliza” do serviço!

No encontro com os jovens da Papua-Nova Guiné, o Papa Francisco, para demonstrar como deve ser o nosso relacionamento com Jesus e com os irmãos, utilizou a imagem do “pulo do gato” ─ é assim que o gato se prepara par dar um grande salto: primeiro ele concentra-se e aponta toda a sua força e músculos na direção certa. E fá-lo com destreza. Também é assim que nós queremos fazer: concentramos toda a nossa força na meta, que é o amor por Jesus e, n’Ele, todos os irmãos que encontramos no nosso caminho, preenchendo tudo e todos com o nosso afeto. Neste caminho, todos nós somos dons de Deus e um tesouro para os outros, não um fardo (Cf. Vatican News). É por isso que começamos o novo ano com os exercícios espirituais: para concentrar a mente e muscular o coração.

Para já, o que é pedido a cada um de nós no início deste ano formativo é que cada um se coloque diante de Jesus e responda ao seu convite: “estende a mão”. Cada um de nós é convidado a estender a mão e a colocar nela em ofertório tudo o que é e tem. Todas as possibilidades e vulnerabilidades. Tudo tendo em vista aquilo que o Senhor quiser dar, que se resume no culto sempre novo. O culto antigo, por vezes, olha só para as possibilidades. O culto novo inaugurado por Jesus coloca tudo ao serviço, mesmo as vulnerabilidades. Por isso é que neste tempo novo, até as vulnerabilidades são objeto do fazer bem dominical ou sacramental, que no dizer do Apóstolo, trata de nos livrarmos do velho fermento que está nas imoralidades, para sermos uma nova massa, chamados a ser pães ázimos da pureza e da verdade.

Vamos viver este novo ano formativo acoitados debaixo pelo desígnio do Jubileu, sob o sinal da esperança. Seremos peregrinos da esperança, como foi no séc. 17, Pedro Claver, escravo entre os escravos negros vivendo a sua missão na perspetiva da espiritualidade da encarnação. Esta acontece, na pessoa de um seminarista, entre duas expetativas: a sua é a da graça do Senhor e a outra é a dos que o esperam como expropriado no serviço.