L 1 2Ts 3, 6-10. 16-18; Sl 127 (128), 1-2. 4-5; Ev Mt 23, 27-32, na Memória de Santo Agostinho
Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! …
Brilhastes, resplandecestes e dissipastes a minha cegueira. Exalastes sobre mim o vosso perfume: aspirei o profundamente, e agora suspiro por Vós. Saboreei Vos, e agora tenho fome e sede de Vós. Tocastes me e agora desejo ardentemente a vossa paz.─ Das Confissões de Santo Agostinho, bispo e doutor da Igreja
Hoje celebramos a memória de um grande santo bispo e doutor da Igreja, Santo Agostinho de Hipona. Um pecador que se tornou um dos grandes santos de todos os tempos. Tinha muitas fraquezas e era um grande pecador antes de sua conversão. O Papa João Paulo II costumava definir um Santo como Santo é “um pecador que nunca desiste”. Esta definição aplica-se sem dúvida alguma a Santo Agostinho, uma vez que ele, enquanto pecador, nunca desistiu de buscar o amor. “Procurava-o fora” e o Amor estava com ele, mas ele não estava com o Amor. Pôs-se à procura dele e encontrou-o dentro, no mais íntimo. Cá para nós: deixou de O procurar na superficialidade e foi quando começou a procurá-l’O na profundidade do seu ser que começou a percebê-l’O cada vez melhor, com a paz que Ele lha trazia.
As palavras de Jesus “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque edificais os sepulcros dos profetas e ornamentais os túmulos dos justos” mostram-nos como o Mestre tinha um grande apreço pelos profetas do antigo testamento. Habitualmente, costuma dar-se muita atenção aos fariseus com quem Jesus teve fortes embates. Mas hoje, gostaria de sublinhar a importância dos profetas (que ficam quase sempre por detrás do pano), uma vez que foram eles que serviram de inspiração para o Sumo Sacerdócio de Jesus Cristo, como mediador entre Deus e a humanidade. Os profetas não ligavam tanto (ou nada) a uma religião de ritos externos quanto à justiça que Deus lhes mandava profetizar. E muitos profetas foram mortos, porque matando-os sabiam que “morta” seria a mensagem de que eram chamados a dar testemunho. Por isso, Jesus disse aos fariseus que ao ornamentarem os túmulos dos profetas eles estavam a completar a obra dos seus pais. Não souberam, pois, herdar uma herança maior que é a da Palavra de Deus, quando os costumes são de uma brandura que distrai.
Uma religião apostada na mera visibilidade exterior ou numa doutrina sem uma pedagogia adequada (gradual) segue o mesmo rumo da dos fariseus. Das duas uma: ou os testemunhos de vida endereçam para a relação pessoal com Deus-Amor ou distraem para si, idolatrando ideias e ações exteriores. Alguém dizia que “as coisas de Deus não são Deus”. Ninguém pode substituir ninguém naquela busca interior à procura do amor de Deus. Seria um abuso de poder ou de consciência.
Paulo ─ que também testemunha que muitas vezes fez o mal que não queria e deixou de fazer o bem que queria (cf. Rm 7,18-21) ─ sugere-nos que nos afastemos daqueles que vivem na ociosidade, para podermos imitar os que, de dia e de noite, se afadigam para não ser peso para ninguém. De facto, “pesamos” na vida dos outros quando o que lhes impomos não tem muito a ver com a busca do amor de Deus; pelo contrário, temos uma presença significativa na vida dos outros quando a busca pessoal do amor é um incentivo a que a outra pessoa faça o mesmo. Para que cada pessoa seja completa.
Se uma exigência externa não tivesse em vista ou não estivesse conectada com a busca de vida interior, então, também neste sentido, poderíamos ser comparados a “sepulcros caiados”. É que a vida verdadeira ou vem de dentro ou não vem. Por isso, é preciso partilhar sensibilidades pessoais (que haverá sempre que respeitar na diferença) à medida que transmitimos ideias. Estas, por mais objetivas que sejam, se não forem acompanhadas por uma visita generosa aos frutos produzidos pela alma humana ─ patente nos bons costumes, na arte, na justiça, etc. ─ não levam longe. Requer-se a pedagogia, que mais não do que um acompanhamento afetivo.
Lembro-me de ter ouvido do próprio Santo Agostinho (numa versão italiana de audiobook das suas Confissões) que passou a detestar os erros dos antigos companheiros nos quais outrora ele tinha caído. Passou a saber pôr-se na pele daqueles que eram “gozados” por tamanha arrogância, olhando com desdém os fautores deste subtil bullying. É aqui que o amor se encontra com a justiça, cuja fonte é a misericórdia divina, aberta a todos.

