navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 2Rs 2, 1. 6-14; Sl 30 (31), 20. 21. 24 Ev Mt 6, 1-6. 16-18

Por vezes, ficamo-nos por uma definição simplista do que seja uma “consciência reta” ou “bem formada”, definindo-a somente como ter presente, na inteligência, um conjunto de verdades que estejam dentro da ortodoxia. Não basta, pois a Verdade que é Deus (Três Pessoas numa só Natureza) precisa de ser acreditada, esperada e testemunhada. Na consciência reta precisam de convergir, como que “concatenadas”, as três virtudes teologais, como se de três chaves precisássemos para abrir esse “cofre” da Verdade que pede para ser acreditada, credível e crida.

Se não for com estas três chaves, poderá acontecer, por inadvertência, inconsciência ou ingenuidade (esperamos que nunca por maldade), que saibamos uma verdade, mas não a pratiquemos; ou que a pratiquemos só para que os outros vejam, esquecendo-nos de que basta o olhar de Deus; ou que o amor nunca chegue a tocar a vida dos irmãos por pensarmos só em regularizar a nossa relação com Deus.

A afirmação de Jesus é muito clara: “Tende cuidado em não praticar as vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Aliás, não tereis nenhuma recompensa do vosso Pai que está nos Céus”. Jesus chama os seus discípulos à atenção sobre o modo que revela a finalidade das ações diante de Deus e dos homens. De facto, tanto o conteúdo como o método são Evangelho. E Jesus propõe exemplos muito práticos, com indicações sobre os ingredientes que nos movem na relação com Deus, na relação com os outros e na relação de cada um consigo próprio. Indicando, inclusivamente, modos, lugares, da beleza e dos aromas, de como haveremos de comparecer diante de todos estes núcleos relacionais. Não é à toa que um bom exame de consciência, aquém ou além dos mandamentos, se sugere fazer tendo em conta aqueles vários tipos de relação: com Deus, com os outros e consigo próprio. E o Papa Francisco ainda acrescenta mais um: a relação com a Criação.

Diria que uma consciência reta forma-se por um caminho que vai desde a Fé que tem a centelha no seu interior, uma Esperança que tem rosto perfumado e uma Caridade que é discreta. Basta o que nos diz Jesus como critério para aferirmos que estamos a percorrer este caminho. Ele dá o exemplo; fazêmo-lo com Ele, porque é Ele o caminho.

Uma consciência formada ou a reta intenção pertence a uma pessoa equilibrada, que busca uma unidade de vida interior capaz de um relacionamento global sadio. E o que é oculto pode, por vezes, revelar mais a beleza de Deus do que muitas das coisas públicas. E sem dúvida: há mais riqueza numa relação discreta com Deus do que do que numa religiosidade proselitista. Diria que não há discípulos de Jesus que não saibam lidar com paradoxos, como aquele que nos apresenta a primeira leitura.

A primeira leitura é paradoxal, comparando-a com o Evangelho, porque Elias sugere a Eliseu que deve olhar para ele para obter o que pede, ao passo que Jesus reprova as ações atribuídas aos hipócritas, tais como “para serem louvados”, “para serem vistos”, “para mostrarem aos homens”. Mas não é verdade. Primeiro porque se trata de uma relação de acompanhamento pessoal, à distância daqueles cinquenta discípulos que os seguiam; Depois, porque Eliseu só consegue separar as águas e caminhar, fazendo do modo que Elias fazia, quando ficou patente que era com o poder de Deus e não de Elias, ao dizer: “Onde está o Senhor, o Deus de Elias?”. Finalmente, não há nenhum narcisismo em Elias, porque a sua “ascensão” é sinal de um Deus que, antes que possamos crer n’Ele, esperar n’Ele e amá-l’O, é, ele mesmo, um Deus que crê nos que criou, é um Deus paciente e é, sobretudo, Amor concreto.

Pela fé seremos crentes, pela Esperança seremos credíveis, mas só pela Caridade é que seremos cridos.

Não admira que para Inácio de Loiola, os sentimentos do Espírito do Bem são marcados pela austeridade e a discrição, com doçura, “como uma gota de água que cai numa esponja”.