L 1 Sf 3, 14-18 ou Rm 12, 9-16b; Sl Is 12, 2. 3-4bcd. 5-6; Ev Lc 1, 39-56 ─ Na Festa da Visitação da Virgem Santa Maria
Hoje, a Igreja celebra a humildade e a generosidade de Maria. A visitação é um efeito da boa-nova que está no seio de Maria ─ o Filho Unigénito de Deus ─ e que Ela tem de partilhar com a humanidade. A festa de hoje tem estas duas finalidades: ensina-nos a contemplar a grandeza dos feitos de Deus nas nossas vidas e na história da salvação, e ensina-nos a imitar Maria como modelo de serviço e amor ao próximo.
Por isso, com a ajuda do Cón. Manuel Alberto Pereira de Matos, Teólogo da Diocese da Guarda, podemos traduzir a afirmação que está na boca de Isabel ─ “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” tendo em conta que aquele “e” (no grego “kai”) é uma conjunção causativa, que também se pode traduzir assim: “Bendita és tu entre as mulheres porque bendito é o fruto do teu ventre”. Desta forma, compreende-se que não é Maria a causa daquela Presença, mas o próprio Deus que é a fonte d’Aquele fruto que Ela transporta no seu seio (cf. Ave Maria, a Bendita. Uma fresta aberta ao ecumenismo, Veritas, Guarda 2020).
A Presença de Jesus é a causa da pressa de Maria, porque é a causa da Salvação. Em Jesus mora o amor verdadeiro que mete sempre o “tu” primeiro que o “eu”. Por isso, Maria ensina-nos que com o Bom Jesus dentro, qualquer subida do Monte é fecunda de paz, beleza e bonança interior. A visitação de Maria é modelo do caminho missionário da Igreja, sintetizado no levar Jesus de pessoa a pessoa. Assim, com Jesus, toda a peregrinação é uma visitação.
No dia em que os jovens de Portugal foram a Roma buscar a Cruz da JMJ e o Ícone de Nossa Senhora, o Cardeal Tolentino ajudou-nos a aprofundar melhor as motivações que levaram Maria a ir ao encontro de sua prima Isabel, que são essencialmente duas:
1) A primeira motivação não é externa, mas interna: Deus entrou na sua vida. Maria é transformada pela visita de Deus. E a consciência do impacto do amor de Deus, experimentado numa forma vital, não a deixa mais parada, nem a autoriza a ser apenas espetadora do curso dos acontecimentos. O acolhimento do dom de Deus que lhe foi comunicado mexe com a sua vida, altera a sua rotina, sugere-lhe que vá além. O sim de Maria é dinâmico. A sua partida é assim consequência de uma experiência de amor e de fé conscientemente iniciadas. A viagem constitui uma forma clara e comprometida de resposta. E «exprime a sua pronta obediência» a se responsabilizar com o acontecer da Palavra do Senhor.
2) A segunda motivação é testemunhar com os próprios olhos o acontecer de Deus. Como aconteceu com os pastores (cap. 2 de Lucas) a quem os anjos aparecem e lhes anunciam o nascimento de Jesus e eles também respondem partindo apressadamente para testemunhar o nascimento de Jesus, enviado a todos. Maria interroga o Anjo e este responde-lhe com um sinal: de que Isabel sua prima concebeu um filho na sua velhice. Então, Maria quis ir apressadamente confirmar a presença deste sinal. Este sinal é como a “estrela” para os Magos. O sinal funciona como uma garantia e um penhor. Portanto, Maria quer confirmar a experiência da sua fé; tem fome e sede de ver com os seus próprios olhos e tocar a condição tangível e histórica da verdade que lhe foi anunciada e a coenvolve. Portanto, a experiência de Maria começa por uma disposição interior diante da Palavra de Deus e desenvolve-se com um envolvimento exterior.
No princípio da sua decisão está um «Sim»: Eis a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a vossa palavra. Este sim livre e comprometido determina a partir de agora a sua existência. Tudo o que se sucede daqui para diante pede para ser lido à luz deste sim gravado como prioridade no coração de Maria. Podemos, por isso, dizer que no princípio da sua decisão está este grande sim.
Podemos, também, dizer que revemos Maria no que o Apóstolo escreve aos Romanos (2ª proposta de leitura para hoje):
Seja a vossa caridade sem fingimento.
Detestai o mal e aderi ao bem.
Amai-vos uns aos outros com amor fraterno;
rivalizai uns com os outros na estima recíproca.
Não sejais indolentes no zelo, mas fervorosos no espírito;
dedicai-vos ao serviço do Senhor.
Sede alegres na esperança,
pacientes na tribulação,
perseverantes na oração.
Acudi com a vossa parte às necessidades dos cristãos;
praticai generosamente a hospitalidade.
Bendizei aqueles que vos perseguem;
abençoai e não amaldiçoeis.
Alegrai-vos com os que estão alegres,
chorai com os que choram.
Vivei em harmonia uns com os outros.
Não aspireis às grandezas,
mas conformai-vos com o que é humilde.
Maria, ao cantar o Magnificat, está a ser solidária com o Povo que hoje caminha pela história e, também, com a esperança do Povo antigo que já cantava nos mesmos termos, como podemos verificar com o “sinótico” canto de Ana, mãe de Samuel.
