navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ex 32, 7-14; Sl 105 (106), 19-20. 21-22. 23 Ev Jo 5, 31-47

Para o sol não podemos olhar diretamente com os nossos olhos. No entanto, ele ilumina-nos sem olharmos para ele diretamente. Deixamo-nos invadir pelos seus raios. Assim é o Mistério de Deus. Não conseguimos vê-lo imediatamente porque nele há muita luz. O que podemos fazer é deixarmo-nos iluminar por essa luz ─ cujos “raios” nos empapam de Deus ─ através das suas mediações: a Sagrada Escritura, Os Sacramentos, a Comunidade, os companheiros de caminhada, os formadores, enfim, neles e por detrás deles: Jesus.

Na noite não conseguimos ver nada, porque há muita escuridão. Assim é o mistério da iniquidade. Nele podemos perder-nos se nos deixarmos guiar pelas mediações das trevas, transformadas em ídolos. A escuridão também pode tomar forma ou ser plastificado, como o bezerro de oiro. Mas a escuridão continua no sentido de se tornar mais espessa e de nos afastar da luz. Por isso, Deus diz e Moisés: “Desce depressa…”.

Na ficção cinematográfica temos exemplos curiosos, a respeito da materialização do mal que pode falar mais alto, embora sem ter a última palavra, do que a luz mansa do amor:

◘ Na saga do Senhor dos Anéis, há uma cena em que um dos hobbits mais novos se deixa enamorar pelo brilho de um palantír. Os palantír são artefatos mágicos do universo ficcional criado por Tolkien, que serviam para ligação com o “olho”. Hoje, também temos as palantír das redes sociais ─ os algoritmos ─ que nos vigiam. É preciso ter cuidado por onde se navega…

◘ Na saga Harry Potter, num dos episódios, aparecem os horcruxes de Valdemort. Neles está fragmentada a sua alma, que depende da reunião dos mesmos para que ele sobreviva e possa tomar corpo. Os personagens da saga têm a missão de destruir um por um dos horcruxes para que Valdemort não vença. Assim, um bem material também pode ser um horcrux. Se não tivermos cuidado, ele pode absorver toda a nossa atenção e afeto. É preciso destruir essa ligação.

Na história da salvação, para que o crente, no seu caminhar, não fique focalizado nas mediações das trevas, são precisas pessoas mediadoras, que saibam descer à realidade das pessoas, para as informar sobre a verdade de Deus Amor, orando por elas, para que Deus lhes mude o coração. A melhor mediação que Deus nos dá é Jesus Cristo e aqueles que se quiserem/deixarem configurar n’Ele.

Jesus quer trazer o Pai até nós e levar-nos ao Pai. Como João Batista, somos também nós chamados a levar Jesus aos irmãos e levar os irmãos a Jesus. Que neste caminho quaresmal o Senhor nos ilumine para não cairmos na tentação de apontarmos as setas para nós próprios, mas para Deus no que há de bom em nós. Tenhamos também a coragem de assumir a nossa impotência diante d’Ele, pedindo-lhe a salvação para cada um de nós e para os nossos irmãos.

Na próxima oportunidade que tivermos para dar testemunho de vida cristã ou testemunho vocacional, procuremos evitar dar testemunho de nós mesmos ou que os outros deem testemunho de nós ─ correndo o risco de nos vangloriarmos ou de nos idolatrarmos uns aos outros. Procuremos, antes, dar testemunho de como contemplamos Deus Pai, apesar das nossas fragilidades, a configurar-nos com o Seu amado Filho, através das mediações e acontecimentos que Ele usa para nos envolver com a sua misericórdia e fazer-nos crescer em estrutura, sabedoria e em graça. Isto dará mais credibilidade à oração dos fiéis das nossas comunidades, ao contemplarem o bem que Deus em nós começou e quer levar à sua consumação.