navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Ez 47, 1-9. 12; Sl 45 (46), 2-3. 5-6. 8-9 Ev Jo 5, 1-3a. 5-16

Segundo um comentário à Bíblia litúrgica (Gráfica de Coimbra 2, 2007), o paralítico do Evangelho de hoje simbolizaria o povo de Israel que, depois da sua longa peregrinação, encontraria em Jesus o seu salvador, que o introduziria na terra da promessa. O número não inteiro 38 pode ter sido usado pelo evangelista tendo em memória o Livro de Deuteronómio 2,14, onde se lê:

A duração da nossa viagem, desde que saímos de Cadés-Barnea até passarmos a torrente de Zéred, foi de trinta e oito anos, de modo que toda a geração dos homens de guerra desapareceu do acampamento, como o SENHOR lhes tinha jurado.

Após 38 anos de esperança «desesperada», tinha chegado o cumprimento da promessa. No entanto, não é o paralítico que toma a iniciativa, como o povo de Israel. É Jesus que a toma, aparecendo como um desconhecido, olhando para ele e perguntando-lhe se queria ser curado.

O “não tenho ninguém que me introduza” e “outro desce antes de mim” revela um doente que não deseja impacientemente ser curado e um povo em que cada um é deixado à sua sorte. Jesus não só toma a iniciativa, mas também como que lhe educa o desejo, pois só depois de ficar são é que o homem toma a iniciativa de levantar-se, de tomar a sua enxerga e de caminhar.

Na vida deste homem, assim como na história daquele povo, era notório um apego a tradições fechadas à novidade do Deus que salva. É um doente e é um povo que se cruza com “torrentes” de graça, mas são intermitentes. Nesta perspetiva, Jesus aparece como a concretização da profecia de Ezequiel: a água viva que Ele dá é a água viva para a vida eterna, é água que atravessa a história e é abundante. Requer que cada homem se deixa banhar por ela.

Contrariamente ao que revelou na cura do cego de nascença (cap. 9) ─ em que não partilha da crença de que a doença seja consequência do pecado ─, apele ao juízo de Deus para o avisar de que não torne a pecar, para não cair em doença pior. De facto, já doenças que podem levar os homens a ser subservientes ou dependentes a labirintos ideológicos e rígidos, dos quais, segundo o Papa Francisco, só se pode sair olhando para cima, para o rosto de Jesus, confiando que Ele é o Salvador.

Esta atitude pastoral de Jesus pode ser contemplada à luz daquela “licitude” que o Papa Francisco refletiu na vigília com os jovens na JMJ Lisboa 2023: Jesus, de facto, olha aquele doente de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se. Ao contrário, a atitude do homem curado e dos judeus já não foi nada lícita, por causa da mera questão do “sábado”. Hoje em dia, entre a tendência do tudo ou nada, há um mar cinzento de situações em que somos chamados a discernir ou ajudar a discernir o bem possível entre a normativa da Igreja e a situação de cada pessoa, sempre à luz desta água viva que sai em cascata do Evangelho, pela Igreja.

Os textos de hoje também se prestam para refletirmos sobre o Batismo e os Sacramentos. Na Via-Sacra das Universidades, o D. José Cordeiro lembrou a constante que estava em todos os patamares e capelas do escadório do Bom Jesus de Braga: a água. Lembra que Jesus Cristo é a fonte inesgotável, que é mais expressiva na Eucaristia. Os jovens costumam dizer que a Missa é uma seca, mas a Eucaristia é uma fonte que nunca seca.