L 1 Ex 20, 1-17 ou Ex 20, 1-3. 7-8. 12-17; Sl 18 (19), 8. 9. 10. 11 L 2 1Cor 1, 22-25 Ev Jo 2, 13-25 ─ No Domingo III da Quaresma (B) / Dia Nacional Cáritas; parte da reflexão inspirada em VV.AA. Comentários à Bíblia Litúrgica. Assafarge: Gráfica de Coimbra 2, 2007.
O Jornal Correio da Manhã traz uma notícia em que se afirma que as “Missas de domingo perdem meio milhão de fiéis” e que “mais de 25 por cento dos católicos ainda não regressou presencialmente às igrejas, após a pandemia”. No mesmo jornal e no mesmo dia, D. Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, afirma que “a Igreja continua viva” e que “a generosidade dos mais pobres é que a Igreja melhor conhece”.
A diferenciação semântica das palavras “igrejas” e “Igreja” que se encontram nestes títulos, pode servir bem de admonição à Liturgia da Palavra deste 3º Domingo a caminho da Páscoa. O tipo de relação, de habitação ou de aproximação aos templos ajudam-nos a observar que tipo de relação os crentes têm com Deus e com os seus semelhantes. A escala de observação poderá ser definida entre o anonimato multitudinal, que leva muitos a acorrer aos santuários (como se observa na imagem abaixo) e o comprometimento no ambiente familiar próprio de comunidades mais pequenas. Uma religião centrada maioritariamente na aparência dos templos e em peregrinações meramente exteriores deriva de uma imagem de Deus “prestador de serviços”, enquanto que uma fé centrada numa ética personalista nos faz encontrar com o Deus de Jesus Cristo, que se compromete com a humanidade até ao mais íntimo do seu ser e nas circunstâncias em que a comunidade se encontra (o que nos faz crer que não há comunidades de 1ª nem comunidades de 2ª, mas todas partes do mesmo corpo, que é superior às partes).

A cena evangélica “fotografada” por João dá-nos a impressão de ver naqueles vendilhões como que um “fosso” que impossibilita ver o verdadeiro sentido do templo de pedra: ser sinal de uma povo que se forma para Deus, do qual o Corpo de Cristo é o modelo. Na encarnação, o Menino Jesus, Templo do Espírito Santo, levado às imediações do templo de Jerusalém, é o que Maria apresenta para purificar o templo; não é Maria que é purificada, mas o templo; a verdadeira Luz saiu d’Ela para o templo.
O templo de Jerusalém era a glória máxima do judaísmo, dentro de unidade e como que a mais representativa consubstanciação do povo judeu. De forma diferente dos evangelhos Sinópticos, que colocam a cena de hoje na última semana do ministério público de Jesus, João coloca-a no início da vida pública do Mestre, como que a dar o “tom” para o Seu programa pastoral. Nesta ação dramática, Jesus insinua que é preciso superar as antigas realidades e subsituí-las por realidades novas: a água pelo vinho, o antigo templo pelo novo Templo que é Cristo.
Hoje, a Igreja, quando celebra alguma festa de Dedicação de uma Igreja Catedral ou outra, reza referindo-se sempre a um “lugar” com a finalidade de que ali seja oferecido um culto digno e por ele se alcancem plenamente os frutos da redenção, na consciência de que Deus edifica o templo da Sua glória com pedras vivas e escolhidas, etc. etc. A importância é dada ao Corpo de Cristo que é a Igreja e não a templos de pedras, por mais nobres e necessário que sejam. Reza-se para que os fiéis, reunidos em nome de Deus, sejam guiados por Ele e alcancem o reino prometido. Acredita-se que Jesus, pedra angular, edificou a Igreja no fundamento dos apóstolos (cf. Pontifical romano).

A expressão de «Devora-me o zelo pela tua casa» recordada pelo discípulos que contemplavam esta cena, ganha aqui um sentido amplo do que representa o cuidado para com os lugares de culto: a vida e a saúde da alma que as pessoas da comunidade ganham nele, fruto não da comercialização de bens, mas da partilha de dons gratuitos.
A sinodalidade da Igreja é ou pode revelar-se, neste sentido, como algo sempre novo (porque sempre carente de formas concretas renovadas) e sempre antigo (porque o passado não está vazio de focos de renovação inspirada), para que a missão seja fruto de uma comunhão de pessoas e não meramente uma (ex)comunhão de bens, através da participação diferenciada, mas voltada para o mesmo objetivo como o que está no ritual da dedicação de uma Igreja: caminhar para a plenitude guiados por Jesus Cristo, o Bom Pastor.
