L 1 Is 1, 10. 16-20; Sl 49 (50), 8-9. 16bc-17. 21 e 23 Ev Mt 23, 1-12
A profecia de Isaías encerra uma garantia que já foi citada pelo Papa Francisco desta forma: “Os pobres são o nosso passaporte para o paraíso“. De facto, uma dedicação cada vez mais plena à causa dos últimos e dos pobres permite-nos, à luz das leituras de hoje duas coisas:
(1ª Leitura:) Ver as coisas a que nos agarrámos injustamente já não como causa de condenação, mas como meio de transação para um bem maior. A realidade do pecado parece ser evocada como metonímia dos bens materiais ou das ações que podem causar a perdição, ou seja: um bem material que compro para me mostrar maior que os outros pode ser chamada de pecado (vermelho escarlate); se, pelo contrário, utilizar esses bens para ajudar os outros a mesma realidade servirá para a minha salvação (“serão brancos como a lã”).
(Evangelho:) Ver a omnisciência, a omnipresença e a omnipotência de Deus de forma mais clara na nossa vida, chamando Deus a cooperar mais nas nossas vidas a partir desses atributos. De facto, se nos dispensamos de O chamar assim, substituindo-O, é em vão que possuímos, que compramos, que aprendemos e ensinamos, que nos deslocamos ou que envergamos funções, por mais “nobres” que sejam. Como disse Dario Vitali, o coordenador dos peritos teólogos do Sínodo, antes das funções vem a dignidade dos batizados; antes das diferenças, que estabelecem as hierarquias, está a igualdade dos filhos de Deus. O maior título de pertença à Igreja não é ser papa, nem bispo, nem padre, nem consagrado, mas filho de Deus. O nosso crescimento para o reconhecimento de Deus Pai, Mestre e Doutor é proporcional à diminuição daquele nosso delírio infantil da omnipotência inicial. E o “termómetro” que confirma este crescimento é a consideração dos outros como irmãos no mesmo caminho, sobretudo daqueles que são mais pobres ou se encontram vulneráveis.

Hoje, ao ouvir um fórum na Rádio, ouvia falar das excentricidades vividas por alguns portugueses que ganham balúrdios de dinheiro só por ocuparem certos lugares de poder civil, notando-se que dali ─ do ocupar lugares e do ganhar muito dinheiro ─ pouco resulta de significativo e de eficiente para o bem dos portugueses. Este perigo pode acontecer em todas as instituições que existem na sociedade e, até, dentro da Igreja. A este respeito, lembro-me da advertência de quem dizia que se uma instituição passa o tempo e gasta todos os seus esforços a cuidar da sua autorreferencialidade, sem olhar para o bem das pessoas, terá tendência a falir; se, pelo contrário, se gastar o tempo, bens e esforços para o bem do ser humano, terá tendência a prevalecer no tempo. Tal alcance de horizonte, tal realização no tempo.
Como inspira o bispo François-Xavier Bustillo, em A vocação do padre perante as crises (Edição do Secretariado Nacional da Liturgia), é preciso passar dos sinais do poder ao poder dos sinais. Uma missão de fidelidade criativa implica ultrapassar uma lógica mundana de envergar o poder, para revalorizarmos diante de todos o poder dos sinais que nos são dados por Deus para não deixarmos sufocar os sonhos que nos ajudam a acreditar melhor no caminho de quem somos, de onde viemos e par ao que somos chamados a ser e a fazer.
A Doutrina Social da Igreja avisa-nos que uma monarquia corrompida deriva numa autocracia (tirania de um só), uma aristocracia corrompida deriva numa oligarquia (predomínio de um pequeno grupo de pessoas) e a democracia corrompida deriva numa anarquia (desordem), levando a que se volte ao ciclo da tirania. O regime ideal seria conseguir vários órgãos de vários tipos de governo, que se deixem avaliar entre si para que consigam o fim para que foram criados.
Inspirado num artigo que estuda fundamentos sociológicos, históricos, bíblicos e eclesiais da oração “pelos nossos governantes”, hoje rezo pelos que têm o poder de governar, uma vens que, segundo se lê, não é comum ou espontâneo esta intenção aparecer na oração dos cristãos (a não ser nas assembleias litúrgicas da Igreja). Talvez seja por ser ter a atividade política como algo profano, sendo mais frequente a crítica aos que a exercem do que a oração por eles. Na verdade, eles precisam da nossa oração, dada a grave responsabilidade que pesa sobre os seus ombros.
