navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 Is 58, 9b-14; Sl 85 (86), 1-2. 3-4. 5-6 Ev Lc 5, 27-32

Em Jesus, os verbos ou ações de chamar e amar confundem-se, porque Ele é amor em ato e ao mesmo tempo o enviado do Pai para anunciar e envolver a todos e cada pessoa no seu projeto salvífico. O facto de em Jesus se confundirem o ato de amar e de chamar prova que, para Ele, cada pessoa conta. Porque o chamamento à própria existência já é uma prova de amor divino. Um dos maiores problemas humanos da atualidade é a falta de fé que está na desconsideração da fraternidade universal.

Neste sentido, o episódio do chamamento de Levi serve-nos de laboratório. Convinha que houvesse publicanos, mas não era suposto que fossem religiosos. Era como se hoje pensássemos que um bancário não pudesse ser seguidor de Jesus Cristo. Se amigo de Jesus e deixar-se provocar por Ele possibilita não só o reconhecimento da dignidade pessoal (ou a restituição da mesma quando se perde), assim como a dignificação da atividade profissional. E uma vocação de consagração especial permite fazer uma integração de tudo, num caminho guiado por Ele. Jesus, Ele próprio, tem uma missão precisa ─ “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores…” ─ porque Se deixa guiar pelo Espírito do Pai. De facto, segundo a imagem que os escribas e fariseus tinham na cabeça, Jesus não se deveria misturar com os pecadores. Mas… como é que um médico pode curar ou cuidar sem ver o seu paciente? E como é que um paciente se pode deixar curar/cuidar sem se perceber digno desse cuidado?

Inspirados pela liturgia de hoje, poderíamos refletir que são duas as “asas” com que a caridade de Cristo nos quer elevar: a piedade (amor a Deus) e a justiça (amor ao próximo). Quando não tem estas duas dimensões, não é a caridade de Cristo. Assim o dizia o Papa Bento XVI:

A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conteúdos relacionais e sociais, e do fideísmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimensão simultaneamente pessoal e pública da fé no Deus bíblico, que é conjuntamente « Agápe » e « Lógos »: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.

BENTO XVI, Caritas in veritate, n. 3

E abster-se da opressão ou da omissão e abster-se da profanação do dia do Senhor são, pois, segundo a profecia de Isaías, os dois “carris” da via ética da caridade. Desta “via ética” faz parte a forma de proceder de Jesus em relação aos pecadores, diante da rigidez dos fariseus e dos escribas:

Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Eu não vim chamar os justos, vim chamar os pecadores, para que se arrependam.

No fundo, Jesus está a exercer a sua missão com aquelas duas “asas” da caridade na verdade: manifestando a misericórdia que é Deus junto dos pecadores, ao mesmo tempo abre-lhes o entendimento para que possam arrepender-se e aproximar-se do abraço de divino.

A profecia de Isaías garante-nos que é na medida em que reconhecemos a dignidade do pobre ou do faminto que podemos manter acessa a certeza do reconhecimento da própria dignidade. E não há dignidade mais importante do que reconhecermo-nos todos como filhos de Deus.

A quaresma é mais um motivo para observarmos como, de facto, na nossa vida podemos aceder à experiência verdadeira do perdão e da misericórdia divina, para consequentemente sermos abundantemente misericordiosos com os nossos irmãos. Para isso, somos chamados a não ter medo que a verdade limitada do que somos esteja face a face ─ aqui e agora na Liturgia como na formação ─ com a verdade que é Deus, conforme Ele se revela. De outra forma, corre-se o risco do farisaísmo ou do legalismo que, sem o assumir do pecado e o arrependimento, levam à corrupção. E esta não deixa aproximar do perdão, como lembra o Papa Francisco.

Ao encontrar-se, ontem, com os formandos e formadores do Seminário Arquiepiscopal de Nápoles, no aniversário dos seus 90 anos de existência, o Papa Francisco exortou aos seminaristas: Não tenham medo de permitir que o Senhor aja em suas vidas, o Espírito virá primeiro para demolir aqueles aspetos, convicções e ideias incoerentes sobre a fé e o ministério, e depois de limpar as falsidades interiores, lhes dará um coração novo, construirá as suas vidas no estilo de Jesus. O verdadeiro amadurecimento é aquele que acontece através da cruz. Lembrou que a Igreja é, antes de tudo, um canteiro de obras sempre aberto, permanece constantemente em movimento, aberta à novidade do Espírito, para vencer a tentação de preservar a si mesma e seus próprios interesses. Encorajou a cultivar a beleza da fidelidade a cada dia, com entusiasmo e dedicação, entregando as vossas vidas ao contínuo trabalho do Espírito Santo, que vos ajuda a assumir a forma de Cristo. Lembrem-se disto: a formação nunca termina, dura toda a vida, e se for interrompida, não permanecemos onde estávamos, mas retrocedemos. Aos formadores, recomendou: trabalhem a maturidade afetiva e humana. Sem isso, não se vai a lugar algum!

A profecia de Isaías, a este respeito, inspira as comunidades da Igreja e os seus membros a ter por certo que o que a Igreja precisa não é de homens e mulheres que sirvam meramente a sua autorreferencialidade ─ como se a Igreja fosse um clube de amigos que se apoiam entre si ─, mas precisa de homens e mulheres corajosos que saibam, inspirados por Deus, ser “reparadores de brechas”, “restauradores de casas em ruínas”, “amigos e lavadores de pés” (Cardeal Seán O’Malley), como Jesus pediu a S. Francisco de Assis. E num tempo de guerras esta mensagem é fortemente atual, levando a Igreja a sentir-se em saída como “hospital de campanha”. Se não for missionária, não será a Igreja de Jesus Cristo!

A este respeito, é importante considerarmos o testemunho dos Sete Santos Fundadores dos Servos da Virgem Santa Maria, cujo modelo de entrega respeitava a seguinte “ordo”:

1) A sua unânime inserção na Igreja, na diversidade de estilos de vida.

2) O cuidado para com o bem-estar dos cidadãos, que faziam herdeiros dos dos quais se libertavam para servir a Deus.

3) A reverência e a honra a Nossa Senhora, formando sob o seu olhar uma especifica família espiritual que não os desagregava da comunidade.

4) A perfeição da alma de cada um, amando a Deus sobre todas as coisas e orientando para Ele tudo o que faziam, honrando-O em todos os pensamentos, palavras e obras.