1Sm 24, 3-21; Sl 56 (57), 2. 3-4. 6 e 11 Ev Mc 3, 13-19
A primeira leitura de hoje mostra-nos como David não se aproveitou da ocasião que teve de se desembaraçar de Saul, mas evitou tal ocasião, tendo sobretudo em conta que Saul fora escolhido pelo Senhor para rei e, como tal, havia sido ungido pelo profeta de Deus. O sentido religioso daquela unção estava acima de todos os sentimentos que a vingança lhe poderia ter inspirado. Ela significava uma ação divina, contra a qual não se devia levantar nenhuma ação humana. David realizou um sinal muito significativo que é só explicado depois: cortou um pedaço da orla do manto de Saul, para lhe servir de prova que teve oportunidade de se livrar dele, mas não o fez por veneração da origem do seu poder. É curioso que David provou ter pontaria e serenidade na luta contra o gigante Golias, mas, na circunstância em que estava a cortar o pedaço da orla do manto de Saul, sentiu o seu coração a bater forte. David sabe que está diante de um desafio que continua a ser reflexo do poder de Deus que se manifesta no poder dos sinais, em vez de sinais do poder que Saul quer perpetuar de forma errada, orquestrando uma forma de governo (uma vez que se faz acompanhar com 3000 homens para perseguir e matar David) que tem pouco que ver com a unção de Deus.
Este testemunho faz-me evocar o depoimento de um bispo espanhol que adverte para que se tenha cuidado com os ambientes e grupos que manifestam uma desafeição aberta contra o Papa Francisco, acusado por alguns como herege e afirmações sede-vacantistas, como se não fosse o papa legítimo, argumentando-se que a renúncia de Bento XVI não se fez corretamente. Constata-se, é verdade, que uma pregação ambígua da doutrina gera estes ambientes. Posicionamentos numa certa descontinuidade com a tradição do Magistério da Igreja gera manifestações integristas desequilibradas. No entanto, uma desafeição contra Pedro é uma ação do maligno. A Declaração Fiducia supplicans não é herética, embora se possa dizer pedagogicamente caótico, diante da qual se pode fazer uma abordagem pedagogicamente crítica. Moral: criticar a pedagogia de um documento destes pode ser construtivo e obra de um espírito bom; ter e apoiar uma desafeição ao Santo Padre já será obra de um espírito mau.
A liturgia de hoje prepara-nos, de certa forma, para a Palavra do Domingo III do Tempo Comum (B), onde, a partir do Evangelho segundo Marcos, se percebe que seguir Jesus não é uma decisão ética autónoma, nem uma adesão intelectual a uma doutrina, mas um ato e um pensamento que novos que brotam da irrupção da graça de Deus. A verdade é que somos todos ─ do simples batizado ao Santo Padre ─ chamados a seguir “cegamente” a Jesus Cristo; a nenhum ser humano se segue, uma vez que seria sacrílego. Os que são escolhidos e formados por Cristo são chamados a ser servos dos outros, em comunhão com Cristo. Jesus, por conseguinte, é o único que pode continuar a chamar. Os responsáveis da comunidade não podem a seu bel prazer converter-se em sucessores do Ressuscitado, relegando-O simplesmente para as honras dos altares.
Jesus chamou os apóstolos não para transcenderem o Evangelho, mas para anunciarem o Evangelho que vai sempre à sua frente, Jesus Cristo Palavra viva! O gesto que Jesus realiza no cimo do monte é transcendente. Foi Jesus que chamou os que entendeu e a sua vontade não pode ter limitações. Enquanto que os fariseus de Qumrân tendiam a formar um grupo à parte, Jesus escolhe os 12 para o novo Povo de Deus, o Israel dos últimos tempos. E Jesus chamou os Apóstolos para os enviar a… É curioso que a finalidade do chamamento por Jesus já está inscrita no nome: “enviar” = apostéllein. Por meio dos apóstolos sucediam coisas que, habitualmente, eram reservadas a Deus. Por conseguinte, o que distingue estes quatro homens de todo o povo de Israel, é a faculdade de realizar sinais reservados a Deus. Isto era distinto da missão dos profetas, que eram chamados somente para falar em nome de Deus, mas não para realizar sinais. Assim se compreende que o evangelista sublinhe a condição de “apóstolos” que carateriza os discípulos de Jesus: não serão apenas transmissões mecânicos de uma mensagem entregue pelo Mestre, mas ativistas “perigosos” como foram aqueles homens chamados e enviados no cimo do monte. Em suma, o profetismo dos apóstolos não é apenas verbal, mas intensamente operativo.
