navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

L 1 1Sm 17, 32-33. 37. 40-51; Sl 143 (144), 1. 2. 9-10 Ev Mc 3, 1-6; na memória de Santo Antão

O jovem David pode não ter experiência de combate como o filisteu Golias, que é guerreiro desde a sua juventude, mas tem experiência do poder de Deus. O jovem David é um testemunho eficiente de que quem luta nos combates de Deus não se deixa intimidar por forças deste mundo e acerta à primeira. É curioso o facto de David só ter usado um dos seixos que tinha no bolso, sabendo inclusivamente usar a própria arma do inimigo para o golpe final. Esta cena do primeiro livro de Samuel até nos dá a impressão que Deus está a pegar na sua consola de jogos e a servir de “aimbot” ou “aim assistant” no combate do jovem David, ajudando-o a ganhar o jogo à primeira.

Jesus continua a sua batalha contra guardar falsamente o sábado. Acusado por ser um profanador, Jesus questiona: “Será permitido ao sábado fazer bem ou fazer mal?” A indicação de Jesus é clara, fazer bem por misericórdia não constitui violação da lei. Nos dias “de guarda”, não é permitido fazer trabalhos servis, quer dizer, lucrativos, podendo ou devendo-se fazer ações de misericórdia. Ora os fariseus estavam a confundir estes dois tipos de trabalhos ou ações. Porquê seria?

Quer os fariseus do tempo de Jesus, quer Saul diante de de David, parece terem sofrido daquela tendência maníaco-depressiva evocada pela italiana Isabella Guanzini, professora de Teologia Fundamental da Universidade Católica de Linz (Áustria) para caraterizar uma certa lógica bipolar que se vê em algumas perspetivas extremas, consideradas como reações radicais que dramatizam as condições da validade universal da verdade. A síndrome maníaca assinalada por um mais ou menos evidente objetivismo, dedutivismo e autoritarismo que tena anular as instâncias do desejo subjetivo e a dimensão dos afetos; a síndrome depressiva despede-se do Absoluto ou instância transcendente em nome de uma contingência radical, dentro de uma história da qual não se decifra o sentido. A primeira tendência (representada outrora, provavelmente pelos fariseus) procura mais a teatralização da fé e a segunda (representada por Saul) sofre passivamente a melancolia diante das dificuldades. David, Jesus, Antão superam estes dois extremos, procurando viver com serenidade e confiança o(s) vazio(s) que só Deus pode preencher, nomeadamente com uma correspondência humana justa e equilibrada.

Esta cena evangélica é uma daquelas em que podemos ver que Jesus tinha sentimentos, como a indignação e a tristeza, diante de tamanha insensibilidade diante do sofrimento de um pobre. Corações duros costumam ter as mentes vazias. Jesus, que tem um coração grande ─ onde se espelha a infinita e insondável benevolência de Deus ─ simplesmente cura, sem justificações, através de um procedimento simples: “estende a mão”. E a mão daquele homem ficou curada. Também nós precisamos de compreender que, por vezes, fazer passar uma moção pela testa só complica, quando, na verdade, basta ter o coração nas mãos, e confiar a cabeça a Deus. Não é por acaso que a Doutrina Social da Igreja se baseia numa ética personalista que coloca no centro da atenção e da ação o ser humano, como Jesus fez.

Santo Antão, considerado o “pai dos monges”, oriundo do Alto Egito, aceitando a radicalidade evangélica, deixou tudo para se entregar a uma vida ascética. Quer dizer: só com a memória dos Evangelhos parte para o deserto, sem calculismos que pudessem prejudicar a sua entrega. Ele segue a tipologia dos profetas que partiram sempre do pressuposto de que Deus estava no meio deles, dispondo somente das suas Palavras na sua mente e na boca e de ações concretas que o Senhor Deus lhes mandava realizar. É um exemplo onde podemos contemplar que a experiência de Deus pode vencer muitos tipos de batalha. A primeira e a mais definitiva é a batalha espiritual: nesta a prova mais dura é a que nos implica em abaixarmos o nosso “eu” diante do poder de Deus. Se não for assim, cada um pode, sozinho ou em grupo, formar uma nova/não verdadeira religião.

Como prova vida de Santo Antão, escrita pelo bispo Santo Atanásio, Antão tinha a mente, o coração e as mãos bem coordenados: na mente “não vos inquieteis com o dia de amanhã”, no coração “rezava a Deus” e trabalhava com as mãos, pois ouvira a palavra da Escritura: quem não quiser trabalhar não coma. Do fruto do seu trabalho destinava uma parte para comprar o pão que comia; o resto distribuía-o pelos pobres.