Sb 2, 23 – 3, 9; Lc 17, 7-10
Uma das imagens falsas de Deus que a espiritualidade cristã mais reprova, talvez porque difícil de escaparmos dela, é a de um “Deus comercial”, sob a qual toda a graça idealizada tenha um preço a pagar pelo nosso esforço ou por esforço (pago) de outrem. Perde-se de vista a liberdade suprema de Deus e sofre-se uma escravidão humana não libertadora.
Não raramente, uma relação com Deus num tipo de “comercial” troca o verdadeiro Deus por outros substitutos materiais ou abusadores espirituais, quando, em circunstâncias particulares certas pessoas são mais vulneráveis e dispostas a renunciar ao bom senso e ao próprio equilíbrio para tentar encontrar uma solução a conflitos pessoais e problemáticas existenciais. Uma vez que numa experiência espiritual estão em jogo pelo menos dois elementos constitutivos ─ a liberdade de Deus que quer entrar em relação com a pessoa e a liberdade do indivíduo que acolhe ou não este diálogo ─, qualquer mediação manipuladora, seja ideias ou pessoas, pode aproveitar-se da emotividade da pessoa para incidir na sua perceção do divino, deformando a imagem de Deus. Isto danifica a vida da fé, porque essa põe em discussão a relação da pessoa com o próprio mundo interior e as suas convicções profundas. (cf. Giorgio Ronzoni, L‘abuso spirituale. Riconoscerlo per prevenirlo, Ed. Messaggero, Padova 2023).
Jesus nunca apresentou a Lei de Deus como uma imposição, que leve a supor um prémio que corresponda a ações realizadas e a sentir dispostos a exigir a Deus a “paga”. Com a forma de descrever as relações entre servo e o seu senhor, o Mestre leva-nos a intuir que o servo não atuar pela paga, mas fazendo simplesmente o que deve. E leva-nos a contemplar o Deus que não age por retribuição da Lei, mas pela justificação da fé. O verdadeiro discípulo de Cristo sabe que as obras que Deus manda realizar são a própria dinâmica de crescimento que assemelham o crente a Deus. No fim do caminho, não exige nada, pois adquire o que desejava: ser filho de Deus. Portanto, para nos parecermos com Deus não precisamos de ser mais do que pobres servos, fazendo o que devemos. O que devemos é o que nos edifica.
Numa sociedade ou religião de meritocracias, podemos perder o sentido da autêntica amizade cristã, caraterizada por aquela confiança de quem ajuda sem falar de recompensas. O verdadeiro amigo não precisa, à luz da teologia paulina, de leis ou mandamentos, porque sabe o que agrada ao amigo e realiza-o porque crê que vale a pena fazê-lo. Se é a vontade de Deus que nos salva, então cumprimo-la sem ter Deus como nosso devedor. Ainda que nos guiemos por leis e mandamentos, coagidos de forma externa, somos chamados a saber que é a prática do bem pela qual Deus já nos está a fazer bem, sem que esta prática nos tire a liberdade.
Infelizmente e sobretudo no que toca à vivência dos Sacramentos, que são encontros com Cristo, nos quais o Senhor nos dá a sua graça, ainda há muitos cristãos que, porventura, os celebram com base na meritocracia. Por isso, Jesus provocou os seus discípulos a servi-l’«’O nos pobres que não podem retribuir-lhes, para aprenderem a não esperar d’Ele nada em troca a não ser na vida eterna.
O que um cristão deve trazer no seu coração é a esperança de um dia ver a Deus face a face, aceitando as provas desta vida como “ouro no crisol”, mantendo-se na fidelidade da graça recebida. Contemplamos a hipótese de não termos uma imagem falsa de Deus na forma como vivemos gratamente a experiência de fé. Como cantamos no salmo: “Em todo o tempo e lugar, bendirei o Senhor”.
Do ponto de vista pedagógico, os tempos à volta do Concílio Vaticano II, por coincidirem com o desenvolvimento da Psicologia após os anos 50, colocou-se muito no centro do desenvolvimento humano a auto-realização. Nos anos da receção (lenta) do Concílio, a antropologia da vocação cristã encarregou-se de valorizar a autotranscendência por um amor teocêntrico (amar a Deus) como fator primário para o desenvolvimento humano, colocando a auto-realização como benefício colateral do mesmo.
