Jn 1,1 – 2,1.11; Lc 10, 25-37
O doutor da Lei que se aproxima de Jesus está bem informado quanto à Lei e passa na prova teórica concretizada pela parábola de Jesus. No entanto, tem necessidade de justificar-se, por não saber como levá-la à prática no confronto com o “próximo”. Ele já sabia enunciar a sua existência, mas não estava habituado a colocá-lo sob o olhar da bondade de Deus através das suas ações concretas. Não o julguemos mal: nos dias em que era devido adorar a Deus, estava proibido trabalhar pelo próximo. E nos dias úteis tinha mais do que fazer, buscando trabalhar pela sua subsistência…
«Faz isso e viverás» e «Então vai e faz o mesmo» ─ são convites que Jesus lhe faz sem qualquer tipo de julgamento condenatório, levando-o a fazer a prova prática ou de campo, para aprender a relação que a Lei teórica tem com a prática da vida eterna (sim, a vida eterna, mais que um mero prémio, é a prática do Evangelho!). Jesus procura alargar a visão do que é a prática da religião (a este respeito, hoje é muito atual este alargamento de visão!). É a Palavra performativa de Jesus (e que é Jesus mesmo) que completa a Lei com a sua concretização.
Muitas interpretações sublimes já foram feitas em relação a esta parábola. No homem caído tanto podemos ver um qualquer homem maltratado, como podemos ver o próprio Cristo. Nos três transeuntes podemos ver as três faculdades da alma, os três estados de vida ou, até, o tríplice múnus de profetizar, santificar e governar na caridade, por vezes em desacordo na realização de um plano pastoral ou quanto ao objetivo da prática do bem. Seja por onde foram as nossas interpretações, o ponto culminante é o da declaração da compaixão como coincidência entre a suma vontade de Deus e o cuidado para com o ser humano.
A liturgia de hoje ensina-nos que sem o olhar de Jesus, qualquer interpretação da Lei carece de sentido, pois deverá sempre levar em consideração a prática da mesma e não o enunciado dela. Ou seja, levamos a Lei de Deus a sério na medida em que a praticamos; não basta sabê-la de cor, é preciso fazê-la com o coração. A profecia de Jonas ajuda-nos a contemplar que, por vezes, os que aparentemente não adoram o verdadeiro Deus são os que Lhe têm mais respeito e temor (rezaram ao seu deus e tentaram remar para alcançar a costa para não deitarem Jonas ao mar), dando-se conta de que aqueles que O representam fogem da missão para a qual Ele os convida. No final, já todos eles rezavam ao Senhor de Jonas, para não serem responsáveis pela sua morte. Passaram do simples “temor” a “temer muito”.
A profecia de Jonas é muito atual e a parábola do bom samaritano é muito necessária. É necessário percebermos que há muita consciência ética na sociedade e que o cristianismo veio para ser alavanca da prática do bem e não só da sua enunciação teórica. A fama dos ninivitas que chegou aos olhos de Deus tinha que ver com a prática da malícia; por isso, chama alguém de fora para lhes anunciar a conversão. Na sua parábola, Jesus também necessita de colocar um estrangeiro a ser exemplo de compaixão, para reorientar os que representam a Lei do Templo para o cuidado para com os templos que são os corpos daqueles com quem Jesus Se identifica. Aos que querem, seja de que maneira for, alcançar a vida eterna, Jesus chama-os a dar atenção à realidade desta vida terrena. É nesta que se semeia aquela, não com autojustificações (que costumam ser fugas), mas com a envolvência na prática do bem.
Penso em tantas barcas como aquela com a qual Jonas fugiu da missão que Deus lhe confiara, aquela menos apetecível. Por vezes, na sociedade e até na Igreja, embarca-se em aventuras que, mesmo sendo boas e agradáveis (lembro-me aqui da JMJ, de idas a Taizé, de peregrinações, etc.), por vezes são uma forma de nos afastarmos de uma resposta mais direta aos desígnios do Senhor para cada um de nós. Não obstante isso, Deus serve-se destas “antecâmaras” da “baleia” ou “pranchas” de mergulho para nos levar ao sítio certo.
