Mesmo sabendo, a partir da atitude de Jesus narrada pelo Evangelho, que a compaixão é a medida do amor, por vezes, em nome da religião, impõem-se regras sem se escutar a pessoa, como se a salvação fosse um encaixe anónimo e em série da humanidade. Para isso, Deus não precisaria de pensar e criar cada ser humano. A encarnação de Jesus Cristo careceria de sentido ou seria uma experiência solitária. Permaneceríamos no Adão (Adam = Homem = Ser humano) indiferenciado.
A escuta do outro também pode configurar uma experiência religiosa e é determinante para se desenhar o caminho a seguir, entre a situação de cada um e os recursos da experiência comunitária. Enquanto essa escuta e o reflexo que se lhe sucede (obrigatoriamente) ─ que repete o que o outro diz, e o ajuda a afirmar, esclarecer e aprofundar o que ele sente ─ não acontecer, não podemos dizer que fazemos a experiência do respeito para com essa pessoa, porquanto todas as nossas considerações surdas serão precisamente uma colagem desnecessária, mesmo que a partir de conteúdos santos ou doutrinais.
Ninguém se sala sozinho, é certo; mas também ninguém é salvo sem a presença de si próprio.
Leitura recomendada: JALICS, Franz. Escuchar para ser: dimensión contemplativa de las relaciones interpersonales. Editado por Pablo d’Ors. Traduzido por José Manuel Lozano-Gotor Perona. Segunda edición. Salamanca: Ediciones Sígueme, 2022.
