navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Jo 12,24-26

O texto evangélico de ontem enquadra-se no tema da glorificação do Senhor, contendo o ensinamento de Cristo sobre a sua morte. Ser “glorificado”, para Ele, é perder a sua vida em favor de muitos, deixando-se “semear” na terra morrendo nela (como acontece com qualquer semente que prometa dar fruto). O episódio contado por João não ignora o contexto do diferendo entre o seguimento dos judeus e da conversão dos gregos. João fala para comunidades judaicas, mas os gregos também querem aproximar-se de Jesus. Quer os 4 evangelistas, quer o Apóstolo Paulo partem do facto de que a evangelização dos gregos/pagãos termina somente depois de ter terminado o ministério terreno de Jesus. Quer dizer que, doravante, terão de ser os discípulos a “morrer” para que outros possam, neles, ver o Cristo que se dá e morre por todos. Portanto, só depois de Cristo, como primícia, ter sido glorificado pelo Pai, é que os discípulos, que O seguem e anunciam, podem participar na hipótese de levar outros ao Mestre através do mesmo tipo de entrega (sublinho este aspeto). Só existe glorificação através da paixão e morte.

Considerações pedagógicas de acompanhamento dos jovens ─ responsabilidade de toda a comunidade dos batizados:

O texto meditado enquadra-se perfeitamente no pós-JMJ e no afã de ver os jovens acompanhados no caminho do seguimento de Jesus.

Em primeiro lugar, sublinho que qualquer caminho vocacional pressupõe uma tentativa pessoal de personalização da fé, que sintetize a história pessoal de cada jovem com a mensagem cristã (este é um trabalho que dura a vida toda, desde que o jovem queira fazê-lo ─ condição essencial).

Em segundo lugar, numa tentativa de colocar o evento JMJ no quadro global da pastoral da Igreja e da vida das comunidades, sugiro a contemplação de uma hierarquia de valores, para que a experiência emocional não caia em “saco roto”, considerando os meios primários de acompanhamento dos jovens e os meios acessórios:

Meios primários:

  • 1. Discipulado (seguimento pessoal em comunidade)
  • 2. Ideais claros (pôr os valores do Reino à frente)
  • 3. Radicalidade (em factos, não guardando a semente que se é ou sementes que se têm – os dons – mas aplicando-se/as)
  • 4. Ser autênticos (em que a realidade que se é e a aparência que se mostra se verificam cada vez mais a partir dos comportamentos/atitudes)

Meios acessórios:

  • 1. Experiências (existenciais, integrais, proporcionais e acompanhadas)
  • 2. Dinâmicas de grupo (que não cuidem só do aspeto emocional, mas também do crescimento real)
  • 3. Discernimento (sobretudo pessoal)

Como se vê, esta “empresa” deve envolver uma comunidade inteira. Já dizia o Napoleão que para se educar uma criança é preciso uma aldeia inteira. Eu interpreto o _Todos, todos, todos_ do Santo Padre assim: todos os que habitam na Igreja (batizados) convictos dos valores que se querem anunciar (a partir do essencial e não do secundário); todos os que procuram envolvidos na comunidade através de ações de oração e caridade, em comunidades integradoras e que se dinamizem também fora dos templos; todos destinatários da missão da Igreja que inclui tarefas de muitos: famílias, professores, catequistas, padres, animadores, idosos, jovens, etc. No meu modo humilde de ver, a missão mais urgente dos padres deveria ser a animação dos animadores. Se eles se gastarem diretamente e sempre só com os jovens, o acompanhamento destes será defraudado, porquanto faltará algum aspeto primário do acompanhamento dado acima (pior se o padre se ocupar com meios secundários). O padre, mais do que tocar um instrumento, deverá pegar na batuta para reger a orquestra.

Penso que todas as JMJs da história procuraram ser uma parábola do que acabei de partilhar (os padres no confessionários, os religiosos e religiosas na cidade da alegria, os animadores no COD, muitos jovens como voluntários, os bispos nas catequeses doutrinais, os políticos na logística, etc. etc.). A JMJ é uma parábola de Igreja e um laboratório de vida cristã. Terá de ser esmiuçada no dia a dia da vida das nossas comunidades. Queremos ser mesmo todos (juntos), envolvendo todos os que quiserem, para anunciarmos a todos? Vamos!

______________

Uma consideração em jeito de nota de rodapé: muitas das nossas atividades pastorais têm sido em modo binário, bipolar ou dualista (como quiserem), considerando a pastoral como um jogo entre padres e leigos, jovens e idosos, Igreja e sociedade. Esta forma de ver ignora a fé na Santíssima Trindade e na verdade evangélica do Reino que já está semeado, como Jesus disse, no meio de nós; não podemos dizer que está aqui ou ali (cf. Lc 17,21). E o Pai semeou-o em abundância, sabendo que as sementes do mesmo podiam cair em vários tipos de terreno. O decisivo é o “jogo” entre a autoridade de Deus que (ch)ama e a liberdade de cada ser humano de Lhe dar uma resposta. Cada vez mais, há que pôr a acentuação na importância da vivência do Batismo, que os já vocacionados (Ordem, Matrimónio, Consagrados) são chamados, como instrumentos, a testemunhar, “regando” o bem que Deus iniciou em cada pessoa com o testemunho pessoal.

(Desculpem, mas a conversa é como as “cerejas”: as mensagens que o Santo Padre proferiu nesta JMJ já estavam semeadas na Evangelii Gaudium, na Fratelli tutti e na Laudato Si’, que configuram uma teologia prática; a JMJ, de certa forma, é/foi um meio acessório da missão do Santo Padre para o futuro.)