navegar: da palavra… à ação

um “púlpito” para escutar:

Gn 21, 5. 8-20; Mt 8, 28-34

No final da saga “O Senhor dos Anéis”, na montanha da perdição de Mordor, Frodo perde o dedo anelar, mordido por Gollum que lhe rouba o anel e acaba por cair na lava que o derrete. Pode ver-se aqui o extrato a que me refiro.

Este final da saga pode ajudar-nos a compreender o episódio do Evangelho de hoje, entre a história, o mito e a teologia, uma vez que a mesma retrata o relacionamento entre o bem e o mal, o combate entre os dois, cada um com os seus métodos personificados, e a vitória do bem sobre o mal.

Um aspeto que me salta à vista, porque está no centro do relato, é o diálogo entre Jesus e os endemoninhados. Apoiado em Michele Novellino, na sua obra Viaggiando con Frodo: alcuni adolescenti diventano uomini, alcuni uomini rimangono adolescenti (Roma 2007), percebo aqui a relação entre duas modalidades de poder que continuam a combater-se no mundo de hoje, sendo o poder considerado na sua matriz relacional e, pois, como a expressão de duas diversas modalidades de relação entre os que exercitam o poder e os que lhe são submissos:

1) A primeira modalidade é aquela baseada sobre uma autoridade de quem detém o poder sobre um outro qualquer, e que funda a própria força sobre a capacidade de suscitar estima e respeito em quem lhe é submisso.

2) A segunda modalidade é baseada sobre um autoritarismo de quem tem o poder, e que em substância cria uma relação entre quem “domina” e quem “é dominado”: o tecido relacional, em vez da estima e do respeito, é constituído pelo medo das consequências de uma não cumprimento das ambições do poder. (cf. p. 67)

Naquele diálogo, o espírito impuro dos endemoninhados parecem utilizar uma linguagem autoritária diante de Jesus, enquanto que o Mestre utiliza uma linguagem que ilustra estima e eficácia para solucionar o mal.

No final, o desejo do anel de Sauron prevalece e Frodo enfia-no no dedo. O homem perde diante do seu monstro, mas perdendo Frodo conquista uma grande vitória, porque o seu lado obscuro, exteriorizado em Gollum, destrói-se a si mesmo caindo no fogo com o anel. A perda do dedo com o anel da parte de Frodo representa aquela “castração simbólica”: a última batalha é, de qualquer forma, perdida. No mundo real, as coisas raramente terminam como gostaríamos. (cf. autor acima citado, p. 89)

O Evangelho de hoje prova-nos que, por um lado, que é possível acontecer obter-se uma libertação espiritual na circunstância em que se perde algo de material. Por outro lado, ser libertados do mal espiritual implica, por vezes, perder algum bem material. Os gadarenos preferem ver Jesus apartado da sua região porque preferiam ver salva a sua vara de porcos em vez das pessoas endemoninhadas. Como diz o povo “vão-se os anéis, fiquem os dedos”. Os gadarenos preferiam continuar a usar o “anel” do sucesso da sua atividade económica (guardadores de porcos) do que a salvação dos possuídos do demónio (portanto, pagãos). Enquanto que para Jesus, a libertação dos homens implica a derrota do mal e de tudo o que o origina. O centurião optou por acreditar em Jesus, seguindo um melhor rumo (cf. Mt 8,5-17).

Entre a autoridade amorosa e respeitosa de Jesus e o autoritarismo dominador do demónio, o ser humano pode fazer a diferença escolhendo o estilo de Jesus exercer o poder. Quando acontece uma atitude contrária à estima e ao respeito ─ o homem individualmente ou os homens em pequenos grupos (como é o caso daqueles “dois” endemoninhados) ─ as pessoas ou os grupos, não obstante os sucessos aparentes, experimentam interiormente sentimentos ou relações infernais, mesmo que os que sofrem tais males não se deem conta disso (dão-se conta os que vivem ao lado, muitas vezes com o peso das psicoses dos outros).