Ap 15, 1-4; Lc 21, 12-19

Um mártir, por definição, é aquele que com a sua vida dá testemunho do domínio de Deus contra um poder que nega este direito divino. Na espiritualidade hebraica, o martírio é descrito com a expressão quiddush ha-shem: “a santificação do nome”. Por isso é que Jesus sublinha a causa do testemunho que os discípulos darão: “por causa do meu nome”. E o argumento em questão é o testemunho público: a perseguição é pública porque o testemunho é público. A palavra martírio serve para sintetizar o ato de testemunhar e a ação de morrer pelo nome de Jesus. Assim foi a morte de Jesus na Cruz: causa e efeito da salvação.

Os três primeiros séculos do cristianismo foram particularmente assinalados pelo martírio de sangue: Jesus de Nazaré, Estêvão, Tiago (Pedro, Paulo… Clemente I, etc.). A certeza do primado incondicional do Reino de Deus encontrou-se com as pretensões divinas do imperador. Nas comunidades cristãs, que naquele tempo eram ainda pequenas e jovens, estas execuções cruéis deixaram sinais profundos, sinais que, todavia, serviram precisamente para incutir a fé indiscutível no domínio de Deus de forma indelével, no coração do império romano. Não é estranho, portanto, que a espiritualidade dos mártires pertença ao próprio coração da espiritualidade cristã.

WAAIJMAN, K., La Spiritualità. Forme, Fondamenti, Metodi, 326-327.

No Evangelho, Jesus sugere aos seus discípulos um total abandono a Deus. A perfeição alcançada pelo martírio ou testemunho consiste no amor.

Esta verdade não deriva tanto do facto de que o amor seja a virtude mais alta, quanto sobretudo do dado fundamental que a própria perfeição consiste no total abandono. Um exemplo iconográfico da Sagrada Escritura é o que está presente em 1 Reis 22, 34: o arqueiro está perfeitamente concentrado em tender o seu arco; ou em 2 Sam 16, em que o rei David está perfeitamente abandonado à sua dança ritual. A perfeição é, por sua natureza, abandono completo sem nenhum traço residual de apego a si mesmos, como a mão esquerda não deve saber o que faz a direita quando dá alguma coisa (cf. Mt 6, 3). O dom é perfeitamente absorvido no escondimento de quem dá. Isto é o que carateriza a perfeição de Deus, que faz descer a chuva sobre justos e injustos, apresentada como exemplo a seguir no discurso da montanha: “Sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48), bondade ilimitada que permite aos pássaros do céu de viver e as flores dos campos de florir (cf. Mt 6, 25-34). O amor perfeito está precisamente lá onde esse se deixa fluir livremente e não tem absolutamente mais algum temor por si mesmo (cf. 1 Jo 4, 18).

WAAIJMAN, K., La Spiritualità. Forme, Fondamenti, Metodi, 388.

A ligação intrínseca entre perfeição e martírio é esta: abandono total no amor. O martírio é perfeição porque o discípulo demonstrou a perfeita obra do amor. Martírio e amor têm o mesmo pano de fundo: tornarmo-nos espirituais, não de forma isolada, mas procurando o mesmo interesse pelo bem de todos. Teresa de Ávila dizia:

É evidente que a suma perfeição não consiste em deleites interiores, nem em grandes arrebatamentos, nem visões, nem no espírito de profecia, mas na conformidade do nosso querer ao de Deus, de tal modo que não haja alguma coisa que reconheçamos da sua vontade que não seja de nós querida resolutamente.

As fundações, 5, 10

Este desejo de perfeição corre pela história da espiritualidade como se fosse um fio de ouro, que serve para marcar a fronteira visível daqueles que permanecem perseverantes na fidelidade criativa a Jesus e ao seu Reino. Aquele fio é feito daqueles cabelos que jamais se perderão das cabeças daqueles que são marcados pelo selo de Deus. Sem desrespeitar ou condenar quem queira obsessivamente fazer implantes capilares por razões estéticas, para os discípulos de Jesus, com pouco ou mais cabelo nas suas cabeças, esses finíssimos fios simbolizam aqueles pontinhos de uma fita métrica infinita do amor sem medida. Esta ordem ou medida infinita de amor ultrapassa toda a estética! Deus aproveita ou coleciona todas as nossas boas ações, por mais pequenas que sejam, como se de filigrana se tratasse!!

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