A vontade do Pai é familiarizar-nos, filiando a nossa ação à Sua vontade

Zac 2, 14-17; Mt 12, 46-50

A celebração da memória obrigatória da Apresentação da Virgem Santa Maria deve-se a uma antiga tradição oriental influenciada pelo evangelho apócrifo de Tiago. Remonta ao séc. VI no Oriente e ao século XIV no Ocidente. No dia seguinte à Dedicação da Basílica de Santa Maria a Nova, no ano 543, construída junto ao muro antigo do templo de Jerusalém, celebra-se a dedicação, quer dizer, Apresentação que a Mãe de Deus fez de Si mesma, desde a infância, movida pelo Espírito Santo, que a encheu de graça na sua Imaculada Conceição. Apesar a Sagrada Escritura ser omissa em relação à infância de Maria, presume-se, pelo seu Sim no momento da Anunciação, que o seu coração esteve sempre voltado para a vontade de Deus.

A cena do Evangelho desta memória é complexa. Parece uma catequese de Mateus acerca dos que estão “do lado de fora”. Jesus parece estar a falar à multidão fora de casa, de onde se depreender que o “estar dentro” e “fora” não dependem de um edifício, nem meramente de um grupo fechado ou multidão que está frequentemente com Ele por motivações diversas, por vezes muito díspares. Ele ensina que os que estão “dentro” são discípulos. E estes definem-se como aqueles que fazem a vontade de Seu Pai.

Se até a Mãe de Deus foi chamada a fazer a vontade do Pai, é porque é uma coisa muito séria, não só para Ela, mas para todos os que quiserem seguir Jesus. A vida em Cristo é para ser levada a sério, partindo do estar com Ele para podermos cumprir a vontade de Seu e nosso Pai. Portanto, estar na presença de Jesus é “meio caminho andado” para cumprir a vontade divina; mas implica realizar o que por Ele Deus nos diz.

A profecia de Zacarias garante-nos que aquela presença não é distante, mas a de um Deus que quer “habitar no meio” de Jerusalém para a reconstruir, depois de um longo caminho pós-exílico de regresso àquela cidade que une o povo e lhe confere identidade e segurança. Depois de um desmoronamento, o profeta propõe a alegria de saber que o Senhor veio para estar no meio do Seu povo para o ajudar a levantar aquela cidade. Para isso, é preciso o reconhecimento dessa Presença, confirmada pela alegria.

Com as nossas vida acontece o mesmo: reconstruir é um trabalho difícil entre a nostalgia do que se perdeu e a esperança do que se receberá ou conquistará de novo. Maria é, para nós, portadora de uma Boa Nova e, ao mesmo tempo, discípula que ajuda na reconstrução do povo de Deus. Não foi à toa que o Papa Francisco intuiu que “A Alegria do Evangelho” inclui tudo o que a Igreja de Jesus Cristo precisa para uma sua reconstrução e que há um caminho a fazer, entre o reconhecimento da presença de Deus neste século e de que há coisas que teremos de deixar para trás para podermos, sem abdicar do essencial, adquirir a Terra Prometida, quer dizer, a vida eterna que tem a cidade de Jerusalém e a Vocação cristã como símbolos.

Tendo Maria por Mãe e como figura da Igreja, sabemo-nos acompanhados por Ela no caminho para e com Cristo. Abraçados a Ela, não ficaremos de fora, mas dentro. Porque no seu regaço, a escuta e a realização da vontade de Deus são uma coisa só. Recordemos como, na passagem da imagem de Nossa Senhora de Fátima pelas nossas cidades e aldeias, muitos dos que pareciam estar fora se aproximaram para escutar a voz de Deus! Maria tem a capacidade de ser influencer na fé! A autenticidade e a coerência atraem muitas pessoas, apesar do que as distingue quanto aos sinais externos da vivência da fé.

A notícia, ou melhor, a realidade que gostaria de juntar à reflexão nesta liturgia da Palavra é a dos jovens de hoje. A maioria parece estar num exílio; outros são vindos do exílio para onde foram ou estão a ser colocados por várias forças pouco dinamizadoras de um futuro promissor aos níveis humano e da fé: para uns uma iniciação cristã sem consequências práticas, para muitos a falta de inserção gradual na vida ativa da Igreja e da sociedade, pela falta de formação e acompanhamento no assumir de ministérios e a falta de emprego para muitos que que saem das universidades. Hoje, estatisticamente, 4 em 10 jovens portugueses diz-se simpatizar com a Fé Católica, mas são uma minoria muito baixa os que são assíduos às nossas assembleias litúrgicas (uma vez que só 2 em 10 de todos os portugueses o são, na maioria idosos e crianças). Portanto, nas igrejas, 5% de jovens e 75% de idosos.

─ Como instaurar no meio dos jovens de hoje uma presença que atraia para Cristo?
─ O que não pode mudar na gramática da fé e o que deverá mudar na vida da Igreja para que os jovens possam nela descobrir o Reino de Deus?

Proponho que rezemos para que face ao crescimento brutal do número daqueles “jovens sem religião”, os nossos agentes pastorais e as famílias nas comunidades tirem ilações e façam sínteses sobre o que fazer para que a experiência da Fé se possa tornar mais relevante para eles. Oremos, irmãos.

Aprofundar mais.

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