Escolhidos para servir o Senhor nos irmãos. Com(o) Maria, despertemos! Levantemo-nos! Vamos!

Lc 23, 35-43; XXXIV Domingo do Tempo Comum C ─ Solenidade de Cristo Rei; XXXVII Jornada Mundial da Juventude

O “princípio ativo” que está em Jesus e que, no seio de Maria, já estava latente, tornando-Se patente na Sua incarnação é a salvação dos outros, escolhido para servir. Viver acordado para a Graça de Deus e sempre num dinamismo de ressurreição, levantando-se e caminhando na proximidade e encontro com os outros, em especial os mais frágeis.

O Evangelho desta Solenidade fala-nos de um vinagre com que procuram aliviar as dores a Jesus, mas Ele não o quer tomar, pois é como que uma “droga” que tira o realismo à sua vida e entrega: é símbolo do “salva-te a ti mesmo” que aliena da entrega pela causa nobre que é salvar os outros. Todos sabemos que quando um vinho bom fica muito tempo dentro de uma garrafa, se não é servido e dado a beber a alguém, para ser saboreado no convívio à “mesa” da existência, estraga-se, transformando-se em vinagre, e é deitado fora.

O Papa Francisco, na sua Exortação Apostólica “A Alegria do Evangelho”, escreveu algo parecido acerca da natureza e missão dos cristãos na Igreja:

Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37).

Evangelii Gaudium, n. 49

Acostado a Jesus, no mesmo “reto sentir”, está “o outro” que toma a palavra verdadeiramente para repreender aquele que não sabe sofrer ao lado de Cristo inocente: «Não temes a Deus, tu que sofres o mesmo suplício?», defendendo Jesus pelo castigo injusto, Ele que «nada praticou de condenável». Em discurso direto, aquele crucificado sensato reza: «Jesus, lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza». Jesus não demora em oferecer-lhe aquele “Hoje” da salvação!

Entre os primeiros cristãos chamou-se a Jesus, também, “mártir”, que quer dizer “testemunha”, O Apocalipse chama-O “mártir fiel” e “testemunha fiel”. Desde a Cruz, Jesus apresenta-Se-nos como testemunha fiel do amor de Deus e de uma existência identificada com os últimos. Identificou-Se com as vítimas inocentes que terminaram como Ele. A sua palavra incomodava, indo demasiado “longe demais” ao falar de Deus e da sua justiça, para a justiça mesquinho dos homens. Nem o Império, nem as gentes daquele tempo poderiam consentir. Haveria que eliminá-l’O. Era d’Ele que diziam “Morreu por nós, por defender-nos até ao final, por atrever-Se a falar de Deus pelos últimos”. N’Ele, podemos recordar instintivamente a dor e a humilhação de todas as vítimas desconhecidas que, ao longo da história, sofreram esquecidas. Seria uma burla beijar o Crucificado, invocando-O e adorando-O enquanto vivemos indiferentes a todo o sofrimento que não seja o nosso. Mesmo que o Crucifixo desapareça dos nossos lares e instituições, os crucificados andam por aí. Podemos vê-los todos os dias na rua ou em qualquer telejornal. Temos de aprender a venerar o Crucificado não meramente num pequeno crucifixo, mas nas vítimas inocentes da fome e da guerra, da violência doméstica e do tráfico humano. Não bastam as teóricas profissões de fé dentro dos nossos templos aquecidos. A melhor maneira de confessar a nossa fé no Crucificado é imitar-Lhe o viver identificados com quem sofre injustamente. (cf. PAGOLA)

Faltam dias, horas, minutos e segundos para vivermos internacionalmente a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2023. O lema que o Santo Padre nos propõe para a vivermos desde já, na sua versão diocesana da JMJ, que é este Domingo de Cristo Rei, é o testemunho da Mãe de Jesus: «Maria levantou-se e partiu apressadamente» (Lc 1, 39).

Lembra-nos o Papa Francisco que, após ter recebido o convite através do Arcanjo, Maria não demorou muito a lembrar-se da sua prima Isabel, não só para lhe anunciar o mistério que lhe tinha sido revelado, mas também para a ajudar a ser mãe na sua velhice. Aquele anúncio impeliu-a (e não a impediu) a levantar-se e a partir apressadamente. O Papa diz-nos que a pressa de Maria e a pressa dos batizados que estucam o Evangelho é uma pressa boa que nos impele sempre para o alto e para o outro. A existência de Jesus dentro de nós, interiormente, confirma-se na nossa atenção e ajuda aos outros, exteriormente. Não devemos, pois, separar estas presenças interior e exterior com distâncias e indiferenças. Sublinha-se, também a necessidade que existe na relação dos mais novos com os mais idosos. O sucesso que interessa à sociedade e à Igreja de hoje necessita que se encurtem as distâncias e indiferenças intergeracionais, com aconteceu entre a jovem Maria e a sua prima idosa Isabel.

Que a vivência desta Jornada Mundial da Juventude a nível diocesano (hoje) e a nível nacional (em agosto de 2023) inclua esta aventura da escuta de Jesus e da relação carinhosa para com os nossos irmãos necessitados de amor e atenção, no meio desta cultura da indiferença e do descarte.

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