Ap 4, 1-11; Lc 19, 11-28

O COP27 ─ Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2022, que aconteceu entre os dias 6 e 18 de novembro de 2022 em Sharm El Sheikh, no Egito ─ desencadeou uma série de reações contrastantes, entre, por exemplo, as que se apoiam numa cientificidade proativa e as que aparentam um certo parasitismo revolucionário.

Uns que dizem que o mundo vai acabar “se até 2030 a energia fóssil não desaparecer completamente…”, como diz José Miguel Júdice, no Expresso, parecem-se com aqueles que diante de Jesus pensavam que o Reino de Deus iria manifestar-se imediatamente.

E os dez servos do soberano que parte para uma região distante, na parábola, fazem-nos lembrar aqueles jovens ativistas do Movimento Greve Climática Estudantil Lisboa, que se barricaram em greve climática no Liceu Camões, cujo protesto inclui a ocupação de seis escolas e universidades de Lisboa. Aquém ou além dos argumentos que levam estes jovens a manifestar-se, não se percebe muito bem se o objetivo é fazer render os seus talentos, tomando partido em soluções que ajudem a minimizar os danos das mudanças climáticas, ou se é mais objetivamente a insatisfação com as exigências de estar na escola ou na universidade. Durante vários anos acompanhei os estudantes universitários da minha cidade em celebração de bênção de finalistas ou “das pastas”, em que o bispo diocesano, diante de uma multidão de estudantes cada vez menos numerosa, frequentemente insatisfeitos, com razão, com a insegurança face à falta de emprego na sociedade, não deixou de os entusiasmar a promover novos caminhos novos de empreendedorismo, criando o próprio futuro com a herança recebida, diante de uma sociedade que precisava deles e dos seus talentos para se renovar. Naquele momento litúrgico de festa, contemplava a sensação que os Apóstolos certamente tiveram na Ascensão do Senhor, entre o medo do futuro e a confiança na promessa do Mestre.

O que Jesus coloca na boca do rei da parábola é perentório: “A todo aquele que tem se dará mais, mas àquele que não tem, até o que tem lhe será tirado”. Os inimigos daquele rei nem sequer adivinharam que o distanciamento daquele nobre não foi em vão, antes lhe deu uma realeza capaz de avaliar os seus investimentos. Jesus estava perto de Jerusalém e ao reparar na barricada que os seus discípulos estariam prestes a levantar à Sua volta, Ele usa a estratégia de lhes contar a parábola para os incentivar a aceitar o caminho da Cruz. Estar investido do poder real, implica um investimento pessoal. Como se costuma dizer “não cai do céu” (entenda-se “nuvens”)! Implica um caminho de abnegação (desprendimento dos próprios interesses) e de compromisso para com uma causa válida (com fins que justifiquem os meios), sem subterfúgios (rodeios, evasões ou meio subtil de sair de uma dificuldade). Para isso, precisamos de um discernimento “cheio de olhos” como os que tinham as cabeças dos quatro Seres Vivos da visão de João. Estão ali representados os quatro Evangelhos, que nos ajudam a ver de todos os lados possíveis as razões para empreendermos um caminho ao jeito de Jesus, sem desistências nem alarmismos, mas somente apoiados na confiança que nos faz colocar a render no “banco” do tempo presente em que nos é dado viver os dons que Deus deu a cada um de nós.

Estamos prestes a encontrar-nos com este Rei, no desfecho deste ano litúrgico. Podemos correr o risco de submeter o início de um novo ciclo ao ram-ram com que iniciámos o ano pastoral ou académico há vários meses, quando deveria ser ao contrário: submetermos a forma como estamos a terminar este ano litúrgico à Presença real de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que possamos expôr-nos humildemente à possibilidade de que o novo tempo forte que se aproxima possa ser um valor acrescentado às nossas vidas. Não são só os movimentos das mudanças climáticas que convidam a reciclar. A Liturgia chama-nos a reciclar! Quer dizer, a mudar de ciclo, não como que num círculo vicioso de hábitos repetidos, mas numa espiral que nos move no sentido da vida eterna. Por isso, para vivermos o Advento que se aproxima, não basta irmos armário buscar e revestirmos o corpo e os olhares de roxo, precisamos de abrir o coração a Quem lhe bate à porta, tirando de lá de dentro tudo o que o impede de ser espaçoso para Jesus.

Assim, preparemo-nos sem medo nem comodismos para o Tempo de Advento que se aproxima, reorganizando, sobretudo, o nosso interior para podermos acolher Aquele com Quem queremos colaborar com o nosso sim quotidiano. Neste interior, resituamos-Lhe o trono que Lhe pertence quando, porventura, deixamos que prevaleçam os nossos desejos de meros parasitismos ou ativismos inconsequentes, que só nos barricam em bolhas autorreferenciais ou suspendem em tempos de uma certa libertinagem.

Aquele que “fez todas as coisas e por cuja vontade existem e foram criadas” sabe bem até onde podemos chegar, se partirmos com Ele e imitando-O na sua entrega por amor. Façamos como Santa Gertrudes, procurando revalorizar a intimidade e amizade com o Senhor, que abre constantemente diante de nós “aquela arca nobilíssima da divindade, a saber, o vosso Coração divino, no qual encontro o tesouro de todas as minhas delícias”.

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