Para encontrar Jesus e o seu Reino, que tipo de “caching”: “Geo” ou “Teo”?

Flm 7-20; Lc 17, 20-25 ─ Memória litúrgica de São Leão Magno

No seu discurso, Jesus identifica-se com o Reino no que toca à sua localização e forma de atuar, nomeadamente como ressuscitado, nos “dias” que “virão”. Portanto, o Reino não se deixa apanhar de qualquer maneira, sobretudo de modo a possuirmo-lo indevida ou interesseiramente. A presença do Reino, como a forma de atuar de Jesus acontece como que por um “lampejo” ou “relâmpago” (os italianos usam a expressão “attimo fuggente” = “momento fugaz” para designar este “repente” de Jesus) que liga a “faísca” de uma boa ação ou obra de misericórdia ao brilho estelar da Palavra celeste. Entre a Palavra e a Ação; entre cada um de nós e o irmão; entre a comunidade da Igreja e a sociedade ─ é aí que podemos encontrar o Reino e o seu Instaurador.

Apesar de o símbolo do Geocaching ser sugestivo, encontrar o Reino e ação do Ressuscitado que no-lo permite vislumbrar não é uma questão geográfica, nem uma data, como os judeus se justificavam querer encontrar para consolidar as suas forças humanas. O Reino é Jesus e tem mais que ver com o dia e a hora (expressões temporais tão usadas para descrever o caminho e a entrega de Jesus), com o quem e o como ou o que fazer. O que estivermos a fazer ─ no dia ou hora e com quem ─ determinará a oportunidade de, com o olhar da fé, vislumbrarmos o Reino e a Presença de Jesus a agir na nossa história. A hora de Jesus foi aquela que resume todas as horas da Sua entrega: a Cruz que não tem nenhum círculo vicioso à sua votla, mas foi colocada na terra para a marcar como casa comum como “antecâmera” do Reino.

Como acontece no Geocaching, podemos correr o risco de querer ver o Reino em objetos escondidos ou lugares enigmáticos, de forma a que só quem os escondeu os possa encontrar. Com Jesus não acontece assim, até porque Ele não tinha morada fixa, nem falava caro. Na Igreja, como o Ressuscitado não é sequer um objeto, mas Sujeito, então só O poderemos encontrar se nos deixarmos encontrar por Ele no nosso interior, para que no interior da comunidade em missão outros O possam encontrar.

Em 2014, numa das temporadas da Pastoral Vocacional da Diocese de Viseu, realizou-se uma iniciativa intitulada de “Teocaching“, em que se disponibilizavam numa publicação diocesana alguns números de telemóvel, a partir dos quais os jovens que quisessem embarcar na aventura da descoberta e do discernimento vocacional, poderam contactar testemunhos concretos de vocações de especial consagração. Alguns jovens foram ousados em telefonar e manter-se ligados, mas, infelizmente, o número de jovens que no mesmo espaço geográfico da diocese de Viseu que se aventuram no Geocaching é incomparavelmente superior. Até mesmo existindo uma “cach” que tem por título “Vir a ser padre na diocese de Viseu” que está escondida junto à frontaria do Seminário! Muitas vezes, o que impera é mais o desejo turístico exterior do que a aventura das paisagens interiores da alma.

São Leão Magno, num dos seus Sermões, lembra-nos que Jesus já nos escolheu para fazermos parte do Seu Corpo. E que a diversidade de funções não é de modo algum causa de divisões, porque, em virtude, todos estamos unidos à Cabeça. Todos temos a mesma dignidade. O sinal da Cruz leva-nos ao aqui e agora da salvação do Reino, no tempo vivido como graça: na minha fronte e na fronte do outro. O que este Papa e Doutor da Igreja escreve, inspira-nos a pensar que há um “Teocaching” a realizar dentro de cada um de nós e um “Teocaching” a realizar no meio da comunidade. Dentro de cada um o coração livre e instruído e no centro da comunidade a caridade ou comunhão podem ser instrumentos para que cada um se possa encontrar e deixar-se encontrar por Jesus Ressuscitado no seu Reino. Como diz aquele Santo Papa que comemoramos hoje: o Verbo encarnado já habitava no meio de nós; Cristo já Se tinha entregado totalmente para a redenção do género humano.

Mesmo a partir da prisão, São Paulo ajuda-nos a ver melhor o Reino de Jesus, com a sua lente: quando um irmão acolhe outro como irmão muito querido, aos olhos do Senhor, com o consentimento, recuperando-o com liberdade, sossegando o coração com o bem do outro. Onde houver a alegria do Senhor por causa da consolação provocada pela caridade, aí está o Reino de Deus! Portanto, não vale a pena especularmos sobre o Reino e a Pessoa de Jesus, que prometeu estar presente para sempre. O mais importante é a expansão do Reino através de um espírito generoso em favor dos outros.

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