Ez 47, 1-2. 8-9. 12; 1 Cor 3, 9c-11. 16-17; Jo 2, 13-22 ─ Na Festa da Dedicação da Basílica de Latrão

A Basílica de São João de Latrão ─ chamada assim porque originariamente edificada sobre um terreno de Plauzi Laterani, na colina de Célio, em Roma ─ foi dedicada ao Santíssimo Salvador pelo Papa Melquíades, sendo construída pelo imperador Constantino pelos anos 311-314. Sucessivamente, foram-lhe dados também como patronos São João Batista e São João Evangelista. É a igreja-mãe de todas as igrejas de Roma e do mundo, porque sede do Bispo de Roma, o Papa. É um sinal de amor e unidade para com a Cátedra de Pedro que, como escreveu S. Inácio de Antioquia, «preside à assembleia universal dos fiéis».

A Liturgia da Palavra de hoje faz-nos contemplar quer o templo primordial que é Jesus ressuscitado, quer o templo onde se reúnem os fiéis para se formarem também eles templos do Espírito Santo. Por isso, a realidade das casas-templo é indissociável dos fiéis-templo. Com razão as comunidades de fiéis celebram fielmente a festa desta Igreja Mãe, pois, como diz S. Cesário de Arles (leitura do ofício de hoje), «sabem que renasceram espiritualmente por meio dela». Diz ainda: «se desejamos celebrar com alegria o aniversário deste templo, não devemos destruir em nós, com obras más, os templos vivos de Deus», indo à igreja com a preparação da nossa alma. É interessante a comparação que faz este bispo entre a limpeza e a luminosidade do espaço de um templo com a pureza e a luz de Deus nas almas dos crentes.

As leituras da Festa ajudam-nos a compreender as igrejas das nossas paróquias e as catedrais das nossas dioceses com as qualidades que a Palavra de Deus inspira sobre elas:

1) Com a imagem da água salubre, Ezequiel inspira-nos que os lugares onde nos reunimos semanalmente em assembleia sejam percebidas como “fontes”. Lemos que «todo o ser vivo que se move na água onde chegar esta torrente terá novo alento e o peixe será mais abundante». Ora, por vezes, notamos que entre as nossas assembleias e a vida no mundo há um hiato muito grande, em vez de um rio que ali se forma e cresce para dar vida a quem está fora. Para que nas igrejas recebamos as sementes das árvores que crescerão fora e darão fruto abundante, a experiência de fé ali fundada terá ser “centrífuga” (que tende para fora) e não “centrípeta” (que tende para dentro), como aliás se sugere em Pastoral Familiar que sejam as famílias.

2) E para que não haja “fossos” entre a experiência de fé vivida nas assembleias litúrgicas e a experiência de fé vivida no quotidiano e nos ambientes da sociedade, e possamos sobreviver ao mundanismo espiritual, será necessário, como nos sugere a atitude de Jesus no Evangelho, «não fazermos da casa de seu Pai casa de comércio», pelo zelo que devora o sinal do seu Corpo que havia de ressuscitar. Não é infrequente vermos às portas das igrejas e catedrais pobres a pedir e, não raro, incomoda-nos de tal maneira que pendulamos entre o dar sob a ética do Evangelho (“não saiba a tua mão esquerda o que faz a tua direita” de Mt 6, 3) e o organizar a caridade o mais possível sobre a justiça (como prevê a “Caritas in veritate” de Bento XVI). A existência de pobres junto aos templos serão, pois, um sinal profético a dizer que os templos prioritários, para os quais existem as casas sagradas, são os corpos que é preciso lavar, alimentar e defender de tudo o que fere a dignidade da vida humana para o cumprimento da sua altíssima vocação.

Numa recente obra publicada pelo Secretariado Nacional de Liturgia e apresentada por D. José Cordeiro, lemos:

Como na purificação do Templo, quando Jesus expulsa os vendilhões (cf. Jo 2, 13-16), a nossa Igreja vive um tempo de purificação em que deve expulsar do interior tudo o que é artificial, superficial ou totalmente profano para restituir à Igreja a sua autenticidade, a sua verdade, a sua missão. O “comércio”, como diz são João (cf. Jo 2, 16) não é a nossa vocação e a nossa missão. A Igreja é o lugar da comunhão com Deus e com os outros.

FRANÇOIS-XAVIER BUSTILLO, A vocação do padre perante as crises. A fidelidade criativa, p. 14

3) Para as obras nas nossas igrejas costumam guardar-se algumas (as possíveis) reservas económicas que costumam estar no capítulo das “depreciações” nos orçamentos e relatórios de contas. E as obras a que maioritariamente estão reservadas essas economias são as coberturas e os telhados, por causa das infiltrações que podem danificar os templos. E está bem! Porém, o Apóstolo Paulo exorta que «veja cada um como constrói», chamando-nos à atenção para o alicerce que está posto ─ Jesus Cristo ─ acima de Quem não podemos colocar outro. Então, se nas nossas paróquias temos os conselhos económicos para ajudarem a cuidar dos telhados, teremos de ter outro conselho paroquial para cuidar da defesa deste comum e impreterível alicerce. Isto para que não deixemos de ser e de formar pessoas-templo para o Espírito santo de Deus.

Por este conjunto de considerações apoiadas neste único alicerce, já não me escandaliza tanto que a basílica de São João de Latrão, do ponto de vista da arte, não seja tão exuberante como as outras basílicas em Roma. Isto é, esperando-se que ali se procura ser sinal deste alicerce da universal caridade de Jesus Cristo. No prefácio do livro acima citado, D. François-Xavier Bustillo, refere que este é o momento histórico de “passarmos dos sinais do poder ao poder dos sinais” (p. 12). E eu acrescentaria: sem equívocos e através de sinais gratuitos!
Três curiosidades: (1) Da Basílica de Latrão sobressai o Batistério que, sendo do séc. IV, é construído no estilo paleocristão que nos ajuda a regressar às origens. (2) Jesus disse aos cambistas que tirassem dali as pombas, para que não se perdessem como símbolos a pagar com dinheiro. (3) As imagens abaixo ajudam-nos a ver com que realismo e radicalidade somos convocados a escutar e a praticar o Evangelho; sendo banda desenhada, refletem cenas quotidianas que se repetem com a distância que, por vezes, existe entre o Evangelho e a prática.

Fonte das imagens: Agustin de la Torre

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