A verdadeira relação jamais implica a definitiva separação; os corpos sofrem a partida, a Liturgia antecipa-nos a chegada

Job 19, 1. 23-27a; 2 Cor 4, 14 – 5, 1; Mt 11, 25-30 ─ Na Comemoração dos Fiéis Defuntos (Liturgia)

O jardineiro de um príncipe persa correu para o seu senhor, dizendo: “Senhor, acabo de ver a morte no pátio, e ameaçou-me. Empresta-me um cavalo, para poder fugir depressa para Ispaão; deste modo, a morte não me alcançará.” O senhor satisfez o desejo do seu jardineiro, que imediatamente cavalgou para Ispaão. Pouco depois, também o príncipe encontrou a morte, e perguntou-lhe: “Porque é que ameaçaste o meu jardineiro?” A morte respondeu: “Eu não o ameacei. Apenas olhei para ele atónita, pois hoje à noite tenho de ir buscá-lo a Ispaão.”

Esta pequena história coloca-nos diante do facto inevitável da morte, por mais que nos escondamos dela. O pensamento sobre a morte tem o condão de nos paralisar, mas também de nos libertar. Saber que um dia vamos partir deste mundo, sem sabermos quando, onde e como, pode ajudar-nos a aproveitar o facto de estarmos vivos agora e de aproveitar melhor o tempo que nos é dado para o vivermos da melhor maneira possível.

O sentido de celebrarmos os fiéis defuntos na Liturgia tem o propósito de nos inserir no mistério de Deus, numa tentativa de compreendermos o mistério da vida humana, uma vez que a liturgia terrena é imagem da liturgia celeste. Celebrar esta liturgia tem a finalidade não só de encontrarmos consolação e conformo para o sofrimento da separação, mas também para aprendermos algo de novo sobre as realidades futuras.

No Evangelho do primeiro elenco de leituras de três propostos para este dia, sublinho três aspetos que nos podem ajudar a viver na esperança da ressurreição:
(1.º) A ação de graças de Jesus ao Pai pela sabedoria que está nos simples;
(2.º) O abraço entre o Filho e o Pai, em cujo âmago Jesus nos quer incluir, com mansidão e compaixão;
(3.º) A leveza do amor em que Jesus nos quer ver, livres de todo o peso que não nos deixa acolher esse mesmo amor.

Tanto na vida como na morte, o encontro com Jesus é sempre um momento de alívio e conforto, diante da experiência da dor, do cansaço e opressão. A Eucaristia é um destes momentos de intimidade em que nos podemos sentir abraçados por Jesus e aliviados com a sua Palavra e gestos de comunhão com Ele e com os irmãos, mesmo com os que já partiram e aqui evocamos em comemoração.

O testemunho de Job diante dos descrentes no sofrimento é o de que, aconteça o que acontecer, o sofrimento e a morte não têm a última palavra. Ao dizer “na minha carne verei a Deus”, faz-nos desejar, também, ver a Deus pela fé a partir da experiência dos nossos corpos, a partir da caridade em que participamos.

Paulo convida-nos a não desanimar, porque embora “o homem exterior se vá arruinando, o homem interior vai-se renovando de dia para dia”. E garante-nos que a ligeira aflição do tempo presente são incomparáveis ao peso eterno da glória. Por isso, olhemos para as coisas invisíveis, que são eternas. Porque à medida que esta morada terrena vai sendo desfeita, vai-se abrindo diante de nós a habitação eterna.

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