A essência da santidade

Ap 7, 2-4. 9-14; 1 Jo 3, 1-3; Mt 5, 1-12a ─ Na Solenidade de Todos os Santos (Liturgia)

No capítulo III da Exortação Apostólica “Alegrai-vos e exultai” sobre o chamamento à santidade no mundo atual, o Papa Francisco ajuda-nos a refletir sobre a “essência da santidade” à luz do Mestre, garantindo-nos que

não há nada de mais esclarecedor do que voltar às palavras de Jesus e recolher o seu modo de transmitir a verdade. Jesus explicou, com toda a simplicidade, o que é ser santo; fê-lo quando nos deixou as bem-aventuranças. Estas são como que o bilhete de identidade do cristão. Assim, se um de nós se questionar sobre «como fazer para chegar a ser um bom cristão», a resposta é simples: é necessário fazer – cada qual a seu modo – aquilo que Jesus disse no sermão das bem-aventuranças. Nelas está delineado o rosto do Mestre, que somos chamados a deixar transparecer no dia-a-dia da nossa vida.

GE 63

É assim que o Santo Padre nos ajuda a olhar e a acolher a cidadania que os cristãos que peregrinam na terra partilham com aqueles que já habitam nos céus. Esta comum cidadania é possível porque a palavra “feliz” ou “bem-aventurado” é sinónimo de santo, “porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade” (cf. GE 64).

O primeiro aspeto do discurso de Jesus e, por conseguinte, o seu rosto expresso na humanidade que hoje lhe é fiel é o ser contracorrente com as modas que nos são impostas pela sociedade “e, embora esta mensagem de Jesus nos fascine, na realidade o mundo conduz-nos para outro estilo de vida”. Não sendo um compromisso leve ou superficial, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho (cf. GE 65).

O Papa convida-nos a deixarmos que, novamente, as palavras do Senhor nos “fustiguem”, desafiando-nos a uma mudança real de vida, para que a santidade não se fique em palavras (cf. GE 66). Que desafios são estes? Eis o elenco:

1) Ser pobre no coração
2) Reagir com humilde mansidão
3) Saber chorar com os outros
4) Buscar a justiça com fome e sede
5) Olhar e agir com misericórdia
6) Manter o coração limpo de tudo o que mancha o amor
7) Semear a paz ao nosso redor
8) Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas

A grande “regra de comportamento” que constrói a santidade que agrada a Deus e na base da qual seremos julgados são as obras de misericórdia (cf. GE 95; Mt 25, 35-36).

Deste modo ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase. Dizia São João Paulo II que, «se verdadeiramente partimos da contemplação de Cristo, devemos saber vê-Lo sobretudo no rosto daqueles com quem Ele mesmo Se quis identificar». O texto de Mateus 25, 35-36 «não é um mero convite à caridade, mas uma página de cristologia que projeta um feixe de luz sobre o mistério de Cristo». Neste apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo, os seus sentimentos e as suas opções mais profundas, com os quais se procura configurar todo o santo.

GE 96

Fugindo das ideologias que mutilam o coração do Evangelho (entre o mundanismo espiritual e o espiritualismo desencarnado; cf. GE 100-103), somos convidados a celebrar o culto que agrada a Deus que, sem esquecer o primado da relação com Deus, tem como critério de avaliação o que fizermos pelos outros (cf. GE 104), critério esse que São Tomás de Aquino não hesitou em afirmar: “mais do que os atos de culto, são as obras de misericórdia para com o próximo” (GE 106), não obstante as nossas fraquezas, apesar das quais, como afirmava Santa Teresa de Calcutá, “Ele abaixa-Se e serve-Se de nós, de ti e de mim, para sermos o seu amor e a sua compaixão no mundo, apesar dos nossos pecados, apesar das nossas misérias e defeitos. Ele depende de nós para amar o mundo e demonstrar-lhe o muito que o ama. Se nos ocuparmos demasiado de nós mesmos, não teremos tempo para os outros” (GE 107).

A força do testemunho dos santos consiste em viver as bem-aventuranças e a regra de comportamento do juízo final. São poucas palavras, simples, mas práticas e válidas para todos, porque o cristianismo está feito principalmente para ser praticado e, se é também objeto de reflexão, isso só tem valor quando nos ajuda a viver o Evangelho na vida diária. Recomendo vivamente que se leia, com frequência, estes grandes textos bíblicos, que sejam recordados, que se reze com eles, que se procure encarná-los. Far-nos-ão bem, tornar-nos-ão genuinamente felizes.

GE 109
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