Ef 6, 1-9; Lc 13, 22-30

Uma vez que Jesus ensina a todos sobre o Reino de Deus por palavras e comparações simples, está implícito de que habitar nele é uma proposta para todos. Prova disso é a Palavra do Senhor que diz “virão muitos do Oriente e do Ocidente, no Norte e do Sul e sentar-se-ão à mesa do reino de Deus”. Senão, teria falado com palavras “caras” ou utilizando linguagem encriptada.

A “semente” com a qual Jesus falava deste Reino está “grávida” do mesmo. E já contem o “fermento” como princípio ativo para transformar quem o queira acolher, para vir a dar frutos de vida eterna.

No aqui e agora, a questão que mais preocupa Jesus é se cada um de nós quer fazer parte desta aventura e sobre o modo a empreender para conseguir fazer parte.

No Evangelho de hoje contemplamos o diálogo entre Jesus e “alguém” que Lhe pergunta “Senhor, são poucos os que se salvam?”. A resposta do Mestre foge de estatísticas e concentra a atenção do seu interlocutor no modo como alcançá-lo.

Uma das traduções do verbo esforçar-se em inglês que considero mais interessante neste contexto é “to run for”. Porque as palavras de Jesus inserem-se no seu caminho para Jerusalém, que Ele assume com seriedade e numa pressa que aprendeu de sua Santíssima Mãe (que o viveu entre a anunciação e a visitação, entre Belém e o Egito, entre Nazaré e Jerusalém). Esta “pressa” não se esquece dos outros no caminho! Jesus, enquanto caminha, vai ensinando por cidades e aldeias, o sentido do caminho certo. O motor é a urgência de quem se apressa a cuidar dos outros, sabendo que por ali está o horizonte da vida.

Portanto, o esforço não é bem um empenho individualista, mas cooperativista. A parábola do dono da casa sugere, precisamente, uma pertença à qual precisamos de corresponder com um tipo de comportamento condizente com o Reino de Deus. A expressão “não sei de onde sois” é uma provocação para que não façamos da vida da fé um mero convívio familiar, porque a certificação de que Deus nos conhece é o cumprimento da sua vontade.

O verbo transitivo esforçar-se, no dicionário, tem, também, o significado de “dar coragem a”, “animar”, “reforçar” e “confirmar”. Portanto, Jesus, ao exortar “esforçai-vos por entrar pela porta estreita”, também poderá querer dizer-nos: animai-vos a irdes por um caminho solidário e não solitário. Como verbo pronominal significa “fazer esforço”, “encher-se de coragem” e “empregar toda a força, toda a energia e diligência para conseguir alguma coisa”. Portanto, a força é importante e os bons condicionalismos também ajudam. Por isso é que o Senhor Jesus ocupava o seu caminho até Jerusalém a ensinar. E o seu ensino é conteúdo e método! O caminho é direção e escola de salvação ao mesmo tempo!

Esta tensão entre a oferta do Reino e os requisitos para lá chegar é algo que me lembra a relação entre o meu ser paciente e o meu médico de família:
Quando vou à consulta, sou colocado diante de um quadro realista da minha situação e também diante do que otimiza a minha saúde para durar o maior número de anos possível sem problemas graves de saúde.
Juntamente com esta quadro, adquirido com análises (endócrinas), leituras biométricas (peso, tensão, etc.) e declaração de hábitos, o médico dá alguns conselhos práticos e a medicação adequada.
Diante do horizonte de ter a melhor saúde possível e dos procedimentos para lá chegar, cabe-me a mim tomar a decisão por não me desviar desse caminho, por mais que custe.

Empreender um caminho, seja ele qual for, que se identifique com “Jerusalém” (sinónimo de vocação cristã), requer pôr em prática alguns verbos ou atitudes acessórias daquele “esforçar-se” ou “animar alguém a”. Encontramo-los na carta de São Paulo aos Efésios e podemos contemplá-los na seguinte nuvem de palavras. Assim se caminha e se ajuda a caminhar para um objetivo nobre, não para chegar por chegar, mas para chegar bem; não por mero conhecer, mas para sermos verdadeiramente conhecidos.

O ânimo espiritual não é só benefício colateral ou consequência do bom comportamento ou do esforço cristão; é, também, causa ou alimento do empenho missionário pelo qual passa necessariamente qualquer vida cristã. O amor de Deus é assim: envolve-nos em todo o caminho, desde o antes e até sempre!

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