Servos para além do dever, cuidando e testemunhando os dons que nos dão a vida

Lc 17, 5-10 / XXVII Domingo do Tempo Comum C / Semana Nacional da Educação Cristã

Neste Domingo a Igreja inicia a Semana Nacional da Educação Cristã, com um convite a refletirmos sobre os educadores cristãos, como guias no caminho. A nota pastoral da Comissão Episcopal da Educação Cristã e Doutrina da Fé insiste na arte do acompanhamento por parte dos educadores àqueles que lhe são confiados, orientando-os para saírem de si mesmos e se abrirem à vida, aos outros, à fé, ao amor e à esperança. Assim, poderão alcançar o seu pleno desenvolvimento e contribuir para um mundo mais humano e fraterno.

À luz dos textos bíblicos de hoje, os educadores podem refletir o modelo que é Jesus Cristo Bom Pastor, para Quem tende o Profeta Habacuc e de Quem parte o Apóstolo Paulo:

Habacuc acompanha o Povo com a sua intercessão a Deus. Clama pela atenção de Deus no meio da violência. E o Senhor não tarda a responder-lhe com um desafio: gravar a visão com clareza, de modo a que a possam ler com clareza. Através do profeta, Deus acompanha o seu Povo como que num jogo entre a “demora” de que se cumpra a sua promessa e a “espera” a viver com alma reta. E é este diálogo tenso entre a promessa e o cumprimento da mesma que nos move na esperança, como o arqueiro que enquanto mantém tensa a corda no arco só lança a seta quando tiver certeza de ter o olhar e a mesma seta centrada no alvo. Se a atira “às cegas”, pode fazer estragos dos que levam Habacuc a rezar a Deus.

Não raramente, as respostas de Deus aos nossos pedidos humanos são pedidos divinos que realizem a Sua justiça pela nossa fidelidade à mesma.

Jesus acompanha os seus discípulos dando exemplo de fidelidade ao plano de Deus. Ele segue o seu caminho para Jerusalém dando exemplo de total fidelidade ao Pai, acompanhando os Apóstolos, para os quais o caminho aberto por Ele também lhes serve de itinerário vocacional. Entre as exigências do caminho de Jesus e os pensamentos e desejos dos Apóstolos há uma discrepância que leva estes a pedir ao Mestre «Aumenta-nos nossa fé» ou «Desperta-nos a fé» (nota na trad. portuguesa). Parece-me que Jesus responde a este pedido de uma forma paradoxal: para que os Apóstolos possam participar nos desígnios salvíficos que estão para além das forças humanas, são convidados a apostar todas as suas forças (o dever), sabendo porém que a qualidade da fé simples no horizonte para onde Jesus os leva (o poder de Deus) será imprescindível para justificar essas forças humanas. É como acontece com o trabalho dos artistas: a reciprocidade desproporcional entre 1% de inspiração e 99% de transpiração, onde os 99% de esforço não servirão para nada se não estiver presente aquele 1% de de fé.

Amar muito, através de boas obras, implica uma mínima perceção de sermos infinitamente amados. Deve ser este o principal “fermento” das boas obras, realizadas entre a nossa disponibilidade e o amor de Deus.

Paulo acompanha Timóteo ajudando-o a fazer a síntese entre o dom divino e o testemunho pessoal de fé. Este educador de Timóteo exorta-o a reanimar o dom de Deus que está nele e que recebeu pela imposição das suas mãos. Lembra-o que os obstáculos internos (como a timidez) e externos (como os que levam Paulo à prisão) não vêm de Deus, mas somente o dom de O servir com fortaleza na caridade. Convida-o a não se envergonhar de sofrer com ele e a guardar a doutrina dele aprendida.

É pela estima que podemos levar aqueles que acompanhamos a ver mais longe, com base nas sementes sãs recebidas e na atração do semeador, mais do que a perigosa projeção dos nossos desejos pessoais (os jovens imaturos podem não saber discernir tendo em vista uma boa decisão; os educadores maduros podem errar na decisão entre muitas, no meio de tantos dados a discernir; cf. Stefano Guarinelli 2014).

Refletindo sobre «O ministério ordenado nas Cartas a Timóteo e Tito», Joaquim Domingos Areais apresenta-nos em Paulo como deve ser a figura do Pastor da Igreja: um guia afetuoso, compreensivo, atento ao essencial, que não se distrai com ilusões ou fantasias, realista, fraterno e com os pés bem assentes na terra. Homem vigilante, que não corre atrás de falsas promessas nem se deixa enganar facilmente, capaz de infundir coragem e esperança, como o Servo de Javé (cf. 2Tm 2,22-26), que faz do serviço a sua missão. Esta imagem do Pastor é também essencial, nos dias de hoje, que precisa de pastores, segundo o coração de Cristo, promotores do diálogo, escutando e animando, no serviço do anúncio fiel do Evangelho e dos mais frágeis, numa Igreja, que olha para os vastos horizontes do futuro com fé e esperança, compreendendo os tempos da paciência de Deus. O essencial no ministério é o amor.

No próximo dia 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis, celebramos o encerramento do “Tempo da Criação“, que o Movimento Laudato Si’ nos convida a viver a cada ano desde o dia 1 de setembro. Portanto, em cada ano é-nos dada a oportunidade de um mês para refletirmos sobre o Cuidado da Criação ou da Casa Comum. Mas, antes de mais, chamo à atenção para os dois “gritos” a que o Papa Francisco nos convida a escutar: o grito da terra e o grito dos pobres. É preciso estucar a voz da criação diante de “fenómenos intensíssimos climáticos” que mostram que há um desequilíbrio, como a perda da biodiversidade que se está a tornar “muito preocupante”, e das “pessoas que são vítimas”.

Os mais pobres, os mais frágeis, os mais vulneráveis e sofredores são aqueles que continuam a ser vítimas. É sobre eles que as coisas recaem com efeitos mais devastadores, e, normalmente, são os que menos têm culpas no cartório. Depois choca as desigualdades que crescem, poucos vão-se apoderando ou dispondo de forma abusiva de recursos que estão a fazer falta para outros terem as condições de vida a que têm direito, as condições de vida que no mínimo correspondam à sua dignidade humana.

RITA VEIGA, Rede ‘Cuidar da Casa Comum’

Que razões podemos encontrar para fazer crescer em nós uma maior preocupação com a casa comum e os pobres? Podemos apontar três, para nos tornarmos animadores Laudato Si’:

1. Estar cansados de ver tantos contrastes entre a extrema pobreza e a extrema riqueza.

2. A dificuldade que temos em dar passos firmes em direção a um mundo mais parecido com o que Deus sonha.

3. Começar por desenvolver projetos através dos quais possamos aprender a ler a realidade e descobrir a raiz dos problemas, que podem ser de oração, de sensibilização da comunidade e propostas de boas práticas para transformar a realidade e inspirar amigos, familiares, etc.

À volta de que preocupações se podem desenvolver projetos que reúnam esforços em favor da Terra que habitamos e os pobres e vulneráveis?

1. Não deixar que a globalização da economia não deixe de fazer a globalização no sentido de haver uma só família humana e fraterna.

2. Não deixar que a sustentabilidade seja para alguns seja só lucro, enquanto que muitos não têm casa e não lhes são respeitados direitos fundamentais.

3. Perceber que durante e depois de crises globais como a pandemia e a guerra, há sempre seres humanos que ficam na cauda da resolução dos problemas, e cujas dificuldades é preciso saber escutar.

4. É preciso chamar a todos a realizar ações concretas ao alcance de todos, mudando estilos de vida e ter outro cuidado com as pessoas e com as coisas.

5. É preciso fazer soar “aos quatro ventos” que as pessoas devem estar primeiro e as instituições devem estar ao serviço do seu bem e não meramente ao contrário.

O ‘Tempo da Criação’ é uma celebração anual ecuménica de oração e ação pela Casa Comum, que se realiza entre 1 de setembro e 4 de outubro, festa litúrgica de São Francisco de Assis.

O Papa Francisco instituiu-o na Igreja Católica, em 2015, e já tinha sido proclamada para os Ortodoxos pelo patriarca ecuménico Demétrio, em 1989.

COROLÁRIO:

Seremos todos “servos inúteis” se só descansarmos na consciência do dever cumprido segundo a lógica humana, em vez de ancorarmos o que somos e o que fazemos na lógica do Criador da natureza e Pai de todos os seres humanos. Antes de úteis e ainda que inúteis, disponíveis diante do amor incondicional que nos oferece a vida plena.

Nesta encruzilhada entre o Tempo da Criação e a Educação Cristã, não nos esqueçamos de, a partir da invocação do Espírito de Deus, discernir e decidir juntos ações concretas para o cuidado dos mais pobres/vulneráveis e a criação. (Se ficarmos em casa fechados a não ferir os mandamentos da Lei de Deus, nunca veremos os novos céus e a nova terra, que implica que arrisquemos sair de casa ao encontro dos outros.)

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