Lc 9, 46-50

Ao encontro do Evangelho deste dia, deparo-me com dois depoimentos que se unem na minha meditação, de forma a tirar proveito da Palavra de Deus como luz para discernir e escolher na vida.

1Um é sobre a meritocracia, num artigo do Observador, por Miguel Soares de Oliveira, em que se lê que vista como valor supremo e exclusivo da organização das sociedades modernas, divide os indivíduos em “vencedores” e “perdedores”. Os primeiros, alegadamente pelo mérito, estudaram em boas universidades, obtiveram bons empregos, e ganharam bom dinheiro. Venceram. Os outros (a grande maioria), não o fez. Perderam. E na lógica meramente meritocrática, uns e outros foram exclusivamente responsáveis por esses distintos desfechos. Dito de outra forma, merecem-nos. E esse alegado merecimento é, para os primeiros, razão para uma desmedida arrogância e, para os segundos, fonte de humilhação.

Ainda que numa sociedade, estruturas e serviços precisem de contratar os melhores, muitas vezes através de um sistema de favorecimentos político-partidários, isto não basta para uma sociedade que queira construir uma boa convivência humana. Michael J. Sandel, autor de “A tirania do mérito”, aponta-nos para um caminho complementar à meritocracia: associar à lógica da meritocracia a humildade de reconhecer que nem tudo o que somos ou conseguimos fazer se deve, exclusivamente, ao mérito (a genética que temos, a educação que tivemos desde que nascemos, o sabermos fazer coisas que são mais valorizadas num determinado tempo e espaço do que outras – veja-se dois campeões mundiais de desporto, por exemplo, o Cristiano Ronaldo, no futebol e o Fernando Pimenta, na canoagem, e as diferenças de rendimento entre ambos – etc.) e, nessa humildade, encontrar formas de valorizar não o resultado, em termos de mercado, do que cada um “vale”, mas sim o que cada um contribui para a sociedade e para o bem-comum.

2O segundo depoimento é do jornalista e académico uruguaio Leonardo Haberkorn, que desistiu de continuar a dar aulas do curso de “Comunicação” na Universidade ORT de Montevideu-Uruguay, através desta carta que comoveu o mundo da Educação. Nesta carta desabafava o seguinte:

Cansado de lutar contra telemóveis, Whatsapp e Facebook, considera-se vencido e desiste, cansado de falar de assuntos pelos quais é apaixonado, para rapazes e raparigas que não conseguem tirar os olhos de um telemóvel que não pára de receber selfies. Nem mesmo o apelo de se deixar o telemóvel de lado por 90 minutos, nem que fosse somente para se ser respeitoso, que ainda foi tendo algum efeito deixou de o ter, o que o levou a perguntar-se se se tenha desgastado demais por esta luta ou se estaria errado. O dramático é que muitos desses miúdos não têm consciência do quão ofensivo é e o quanto magoa o que eles fazem. Além disso, está cada vez mais difícil explicar como funciona o jornalismo, a pessoas que não o consomem, nem lhes faz diferença estar informado ou não.

Diante de notícias que o professor de jornalismo vai reportando aos seus alunos, a resposta da maioria é o silêncio, de modo que conectar pessoas tão desinformadas com o jornalismo se tornou complicado (seria como falar de botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais). Para exercer bem a sua profissão, um jornalista tem de ser ensinado fundamentalmente a colocar-se no lugar dos outros, a cultivar a empatia como ferramenta básica de trabalho. A verdade é que estes miúdos inteligentes e calorosos foram enganados, a culpa não é só deles. A incultura, o desinteresse e o alheamento, não lhes nasceu do nada. Foram-lhes matando a curiosidade, e cada professor que deixou de lhes corrigir os erros ortográficos, lhes estava a ensinar que tudo vai dar mais ou menos ao mesmo.

Assim, professores e educadores vão baixando a guarda e aí o mau acaba sendo classificado como medíocre; o medíocre passa por bom; e o bom, nas poucas vezes que chega, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte desse círculo perverso. É assim que se acaba o interesse pela leitura da realidade. É aqui que acaba a empatia entre alunos e professores, a possibilidade de que pela humildade algo de grande aconteça em favor do bem comum.

Jesus, no Evangelho, dá uma lição aos seus discípulos sobre uma dupla questão: 1º – Sobre o que significa ser maior, mostrando-lhes uma criança e convidando-os a ser pequenos. 2º – Sobre o que significa a comunhão no bem na diversidade de pertenças ou presenças, proibindo-os de proibir (passe a tautologia) que outros também usem os mesmos métodos pastorais não obstante não andarem sempre com aquele grupo.

Vejo este episódio do Evangelho como resposta àquelas duas notícias: por um lado, nenhuma meritocracia pode dar numa cultura de paz, se não se partir da consciência de que “habitamos numa casa comum”, temos as mesmas necessidades fisiológicas e psicológicas básicas, e os mesmos direitos e deveres (seja na sociedade como na Igreja e nas instituições, apesar da diferenciação de papéis); quanto maior for o fosso entre os que exercem missões de comando e os que obedecem, maior será a probabilidade de abusos (seja de poder por parte da autoridade, seja de reivindicações ou preguiça por parte de quem é comandado).

Como resposta à segunda notícia, para desviar da hipótese de que o caminho aberto pelo Senhor seja uma questão de mera pertença a um (sub)grupo ou a uma casta especial, somos exortados à empatia que deve ser reservada a quem nutre os mesmos sentimentos, apoiados nas mesmas verdades, apesar de línguas diferentes e proveniências culturais diversas. Se partimos sempre de princípios gerais que só visam defender as estruturas em vez de estar atentos ao que é preciso fazer para o bem das pessoas (e no mundo somos poucos para tantos desafios), as estruturas estarão condenadas a falir. Às pessoas não basta pedir um “Ámen” por mais que o que lhe propomos sejam santo. É preciso chamá-las a participar no discernimento a partir de uma boa leitura da realidade, gerando uma maior cumplicidade entre alunos e professores, entre filhos e pais/educadores, entre fiéis e pastores.

Por isso, hoje rezo por dois motivos:
1º – Pelo grupo que está a elaborar a síntese europeia, de 21 de setembro a 2 de outubro, em Roma, da etapa continental do Sínodo “Por uma Igreja Sinodal – Comunhão, Participação, Missão”, para que consigam captar o que o Espírito quer sugerir à Igreja, através de um verdadeiro discernimento de oração.
2º – Para que a cultura da solidariedade e empatia proporcionada pela leitura de bons livros literários e um bom conhecimento da realidade se sobreponha à cultura do ódio e da agressividade promovida por grande parte da comunicação superficial nas redes sociais.

Apresentação do Livro “O Corpo Humano”, de escritora Maria do Rosário Pedreira. RTP

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