Am 6, 1a. 4-7; ; 1 Tim 6, 11-16; Lc 16, 19-31 ─ No XXVI Domingo do Tempo Comum C

Vamos diretos ao assunto deste domingo, eminentemente ético: a riqueza, quando elevada à categoria de deus, substitui o verdadeiro Deus e ignora os irmãos nas suas necessidades. Acontece que, por vezes, o direito à propriedade privada sobrepõe-se ao direito à defesa da dignidade da vida, em vez de ser ao contrário até que todos possam usufruir de uma existência terrena de paz e promissora de eternidade.

Por outro lado, observa-se que na Europa crescem dramaticamente os ataques a ativistas e organizações de direitos humanos que defendem os migrantes, constatando-se, em algumas decisões políticas, como que “criminalizando a solidariedade”, como “uso generalizado por autoridades europeias, líderes políticos e meios de comunicação, sendo criada uma narrativa de que os migrantes representam uma ameaça à segurança”. Portanto, ajudar e ser ajudado em situações em que é preciso defender os direitos humanos tornou-se “tabu” em alguns países. É aqui que se torna atual a Palavra estucada na primeira leitura: «Ai dos que vivem comodamente em Sião e dos que vivem tranquilos no monte da Samaria. Deitados em leitos de marfim, estendidos nos seus divãs, comem os cordeiros do rebanho e os vitelos do estábulo… partirão para o exílio à frente dos deportados e acabará esse bando de voluptuosos».

No entanto, também há respostas positivas, conforme o Evangelho e que correspondem ao “bom combate da fé que conquiste a vida eterna” que o Apóstolo Paulo recomenda a Timóteo: pelo terceiro consecutivo, nestes dias 22-24 de setembro de 2022, em Assis aconteceu o evento global “Economia de Francisco”, reunindo jovens do mundo inteiro (economistas, empreendedoras, empreendedores, transformadores, estudantes, trabalhadores e trabalhadoras), com os quais o Papa Francisco assina um pacto global: que a economia se torne uma Economia do Evangelho. É possível mudar, transformar uma economia que mata numa economia da vida. Uma economia amiga da terra e uma economia de paz. Os jovens reafirmam neste Pacto: “nós acreditamos nesta economia. Não é uma utopia, porque já a estamos a construir. E alguns de nós, em manhãs particularmente luminosas, já vislumbram o início da terra prometida”.

Estes jovens empreendedores ─ que embarcam nesta nova aventura económica, têm nomes e representam países e instituições ─ estão do lado do pobre Lázaro do Evangelho, tendo bem presente para que servem os bens materiais e o que significa estar bem na vida.

Uma riqueza sem o verdadeiro Deus facilmente leva o ser humano a cair na perda de sentidos que gera, por sua vez, a perda de sentido: do não ver o irmão faminto ao não ser visto no Reino; do não ouvir a Palavra da Vida na terra ao não ser ouvido com direitos na eternidade do Céu; do não abraçar o pobre em vida ao não ser abraçado na morte.

Na sua obra “Escutar para ser ─ A dimensão contemplativa das relações interpessoais”, Franz Jalics* fala de um ensinamento, entre outros, importante para que a nossa contemplação olhe para o céu sem deixar de passar pela terra ─ é o princípio da proporcionalidade, que descreve da seguinte forma:

A relação que se mantém com Deus, com os outros e consigo mesmo é exatamente proporcional. (…) Queres saber a relação que manténs com Deus? Olha a relação que tens com os outros. Se amas uma pessoa, queres bem a dez, toleras umas vinte, és indiferente a umas sessenta, há treze ou catorze que, francamente, não te fazem muito felizes, e uma ou duas às que nem sequer as podes ver; exatamente assim é a tua relação com Deus: ama-Lo em um por cento, te deixa indiferente em sessenta por cento, resulta-te agradável em uns dez por cento, tolera-l’O em vinte por cento e assim sucessivamente. (…) Se nos ficamos só nos grandes princípios, corremos o risco de a mensagem nunca chegar ao coração do homem. Em qualquer caso, tudo isto o diz a Sagrada Escritura, de forma mais retumbante: «Quem diz amar a Deus e não ama seus irmãos, é um mentiroso» (1Jo 2, 4).

FRANZ JALICS, Escuchar para ser ─ Dimensión contemplativa de las relaciones interpersonales, p. 11

Converter-se ao próximo e interessar-se pelo outro é a mesma dinâmica de se converter a Deus e de se interessar por Ele. Para isso, é preciso colocar-se no lugar do outro, se quisermos que o outro se coloque no nosso lugar. É sábio o ditado popular de que Jesus foi protagonista: “faz ao outro o bem que gostarias que te fizessem a ti e não lhe faças o mal que não gostarias que fizessem ati”. Para isso, é preciso promover o diálogo que não seja só troca de palavras, mas também uma permuta de dons.

Ao celebrarmos, neste domingo o 108º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, o Papa Francisco convida-nos a Construir o futuro com os migrantes e os refugiados e incentivando-nos que a busca da verdadeira pátria esteja alicerçada na inclusão daqueles que, vindos de periferias existenciais, procuram uma vida mais digna. Uma principal tarefa é reconhecer e valorizar tudo aquilo que cada um deles pode oferecer ao processo de construção do futuro. Neste sentido, a Caritas Internacional pede ações concretas, em vez de “slogans vazios”.

A resposta da Igreja na defesa e acolhimento dos pobres mostra-nos que Deus continua a ser o garante da vida dos pobres, não deixando que nenhum fique prisioneiro da sua condição social, incapaz de gerar felicidade, mas que abra a porta da libertação. A fé do Evangelho é que Deus sacia os famintos e exalta os humildes. Portanto, é no Senhor que devemos colocar toda a confiança e não nas riquezas.

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* O jesuíta Franz Jalics é um daqueles dois para quem o Cardeal Jorge Bergoglio pediu a libertação, nos anos conturbados da ditadura argentina, faleceu no ano de 2021 em Budapeste. Foi o fundador dos “Amigos do Deserto”, de que Pablo D’Ors é hoje um dos principais promotores. Para além da obra citada neste artigo, deixou-nos os seus “Exercícios de contemplação”, através dos quais defende a simplicidade como a necessidade básica para o homem moderno que busca um contacto simples, espontâneo e direto com Deus, diante do mundo tecnificado, complexo e vertiginoso em que habita. A contemplação é, precisamente, o contacto direto com Deus.

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