Identidade e missão de Jesus na identidade e missão dos apóstolos, sem rótulos nem subterfúgios

Lc 9, 18-22

Numa brincadeira de escola, um aluno colou um papel nas costas de outro aluno da mesma turma que dizia “sou estúpido”. Pediu ao resto da turma para não dizerem nada. Passaram o dia a rir do amigo. Mais tarde, na aula de matemática o professor escreveu num quadro uma equação difícil. Ninguém foi capaz de responder, exceto aquele aluno. Levantou-se e foi ao quadro enquanto todos riam e gozavam baixinho. Ele não percebia porquê, mas foi ao quadro e resolveu a equação. O professor pediu à turma toda para aplaudir a resposta certa e tirar o papel das costas dele. Depois disse-lhe: “Parece que não sabias que tinhas um papel colado nas costas. E ninguém te disse nada, certo?”. A seguir, olhou para a turma e disse: “Antes de vos dar um castigo, vou-vos ensinar duas coisas. Ao longo da vida, vão colocar-vos rótulos nas costas com coisas feias para impedirem o vosso progresso. Se ele soubesse do papel nas costas, não tinha ido ao quadro resolver o problema. Tudo o que tens a fazer é ignorar os rótulos que as outras pessoas te dão. Usa todas as oportunidades que tens para progredir, aprender e melhorar”. A segunda lição da história? Claramente, não há aqui nenhum amigo leal com coragem para falar do papel. Não importa quantos amigos tens. É a lealdade entre ti e os teus amigos que importa”.

Um professor de Psicologia dizia-me que a dimensão humana que mais ansiedade nos dá e que é mais desafiadora é a dimensão psicossocial. E calcorreando, pela meditação, as relações humanas, no quotidiano, quem é que não se dá conta desta verdade? E como será que, positiva ou negativamente, a forma como vivemos esta dimensão beneficia ou interfere quer a identidade de cada pessoa, quer no propósito de cada uma nesta vida?

Por isso é que Jesus, mesmo tendo da sua companhia os seus discípulos, orava sozinho. O Padre Pio costumava dizer que a oração faz desaparecer a distância entre o homem e Deus. Esta afirmação ajuda-nos a compreender porque é que Jesus não abdicava desta relação com o Pai: para alicerçar e defender a sua verdadeira identidade e missão.

As duas faces da mesma moeda que têm que ver com a forma como desenvolvemos e defendemos as nossas relações humanas são a identidade da pessoa e o seu papel fundamental no mundo (é o mesmo que dizer vocação e missão). Quer numa, quer noutra, a tendência é a confusão: confusão de papéis porque confusão de identidades. Por isso, seguro de Si e da sua missão, Jesus pergunta aos discípulos sobre o que pensavam d’Ele, o que numa primeira abordagem denota uma verdadeira confusão nas respostas. Porém, a resposta de Pedro, embora esteja certa no rótulo, está errada no conteúdo: Jesus não seria um Messias político e revolucionário à maneira dos homens. Por isso, proíbe-os de anunciar aquele tipo de Messias que têm na cabeça, não obstante Jesus ser, de facto, o Messias de Deus (é mesmo isso, de Deus, por Deus ungido, e não dos homens). Não foi por acaso que Jesus, na sua apresentação habitual, se fazia passar por “Filho do homem” (título que não perdeu aquela Unção divina/paterna). Este rótulo convinha melhor a Jesus para a realização da sua missão, passando pela descrição que Ele anuncia: o sofrimento, a rejeição, a morte e ressurreição. Na cabeça dos discípulos e nos ouvidos da multidão, não era fácil de relacionar esta descrição com o rótulo de “Messias de Deus”.

Os rótulos costumam pecar sempre ou por excesso ou por defeito, no confronto com um papel ou missão que a pessoa é chamada a realizar (como o rótulo “eminência” em relação ao martírio/testemunho que os cardeais da Igreja são chamados a realizar). O que convém é mesmo que os papéis ou missões sejam constantemente avaliadas em confronto com uma boa definição de identidade. Assim com pessoas, assim com os cristãos, assim com a Igreja e os discípulos de Jesus Cristo. Não é por acaso que um pedaço considerável do caminho formativo para o presbiterado é o de configuração com Cristo: com a sua identidade e missão, que é o mesmo que dizer com as suas motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos. A partir de uma opção fundamental em segui-l’O, não obstante os equívocos de fundo quando às motivações, sentimentos, atitudes e comportamentos de cada pessoa (cf. A. Cencini).

Não foi à toa que o Padre Stefano Guarinelli, no recente Simpósio do Clero de Portugal, tratou a questão da dimensão interpessoal da identidade relacional só depois de aprofundar a dimensão relacional com Deus da identidade sacerdotal. De facto, se partimos das pessoas, meramente, para definir a nossa identidade e missão, é possível que cada um de nós fique aquém de ser o que deve ser em função do que deve saber fazer. Se partimos de Deus, com sabedoria e coragem, há mais probabilidade de vermos a ser o que somos chamados a ser e a cumprir a missão que Ele reserva para cada um de nós.

Já Freud dizia: quando Pedro ma fala de Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo. Quer dizer: quando falamos de outro, há muito de nosso no que dizemos e na forma como o fazemos. E o que escolhemos dizer sobre os outros, assim como de Jesus, e a forma como o fizermos é que vai dizer da forma como usamos o tempo, tão definido por Coelet como que num pêndulo ou balança, e da forma como discernimento a tarefa que Deus tem para cada um de nós, sendo que a do verdadeiro amor que colocamos no que dissermos e fizermos seguramente nos afastará de todas as vaidades. Só estas é que podem levar o homem a correr o risco de todos os tempos, que foi o risco de Adão e Eva: querer compreender o princípio e o fim da obra de Deus. Ocupemo-nos, pois, da obra do meio, nesta terra do meio, no durante da nossa história. Para isso, ajuda muito a forma como deixamos, na oração, Deus afinar as cordas na nossa “guitarra” pessoal, entre a cabeça e o coração. E conforme deixarmos que nos toque e a tocarmos, assim se dançará. E é preciso entrar na dança…!

À pergunta de Coelet «Que aproveita ao homem com tanto trabalho?» responde-se com as provocações de Jesus no Evangelho ─ quem sou Eu diante do que me vai acontecer o que que faço ─ e, portanto, como Ele, depende de quem partimos, de para onde nos dirigimos e de como ocupamos o tempo que Deus nos dá.

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