A luz da Palavra não se esconde ao mostrar e defender a verdade nas injustiças

Lc 8, 16-18

No dia 12 de maio de 2017, às 18h15, rezava o Papa Francisco diante de Nossa Senhora de Fátima, na capela das aparições, uma oração

Salve Rainha,
bem-aventurada Virgem de Fátima,
Senhora do Coração Imaculado,
qual refúgio e caminho que conduz até Deus!
Peregrino da Luz que das tuas mãos nos vem,
dou graças a Deus Pai que,
em todo o tempo e lugar,
atua na história humana…

Cf. Livrete das Celebrações em Fátima

A Palavra de hoje fez-me revisitar a vida de Mario Jorge Bergoglio e pesquisando sobre a sua vocação encontrei um título em que lia: Bergoglio, um padre que aprendeu a rezar. O autor refere que, um dia, um professor lhe deu um “raspanete”:

Queres fazer o bem, antes sequer de o entenderes e isto só pode ter uma razão: rezas mal (… Não contente com esta afirmação, Bergoglio riposta em discordância e torna a ouvir:) Tens de aprender melhor as coisas simples (…), tens de aprender que a fé não deve ser triste (…) Não podes amuar e tens um longo caminho de aprendizagem pela frente (…)

E foi o que o agora Santo Padre fez desde então. Com a sólida formação teológica que recebeu, Bergoglio dizia as ordens são-me impostas sobretudo pela minha consciência, vivendo na prática num difícil equilíbrio entre o que o coração destemido e a mente ética lhe ditava, diante das injustiças da sociedade em que viveu. Na Argentina, em Buenos Aires, dizia: se as pessoas não vêm à Igreja, é a Igreja que tem de ir ter com as pessoas.

A história de Jorge Bergoglio cruza-se, inevitavelmente, com o conturbado e perturbador clima político que ali se viveu, estando, em simultâneo, carregada de uma espécie de “simbologia da simplicidade” que Francisco tenta manter desde que foi eleito Sumo Pontífice. Ele foi uma daqueles homens que viveu entre a ameaça política e os avisos da Igreja, diante dos desafios mais delicados da sociedade, vítima de “vendetta” política quando, na verdade, se revelou contra a violação dos direitos humanos, cooperador com os padres que doutrinavam e defendiam os excluídos nas favelas mais pobres de Buenos Aires, na medida em que muitos deles eram associados a movimentos revolucionários.

Bergoglio foi obrigado também a uma “gestão no arame” assente num equilíbrio difícil entre a figura de autoridade que já representava enquanto superior provincial jesuíta – e os seus deveres para com os seus superiores e com o próprio Vaticano – e a realidade tortuosa em que vivia e com a qual manifestamente sofria – condenando-a veementemente. Ele tinha um “alerta de consciência” ao afirmar “há que seguir a cabeça ou o coração” diante das suas responsabilidades eclesiásticas, mas sobretudo morais, e é nessa dualidade que o coração parece sempre levar a dianteira.

Um dos padres jesuítas de que Jorge Bergoglio foi acusado injustamente de não saber defender ─ Francisco Jalics ─ é um autor que serve de base à Biografia do Silêncio, a Biografia da Luz e à Associação dos Amigos do Deserto, de Pablo D’Ors. A recente obra publicada Escuchar para serDimensión contemplativa de las relaciones interpersonales ajuda-nos a compreender o Evangelho de hoje, na medida em que nos aponta o problema mais básico da ação pastoral: sem disposição ao diálogo não é possível a transmissão da fé. Isto significa que é na escuta desinteressada, assim como no respeito e na abertura ao outro, o que permite às pessoas ganhar a claridade sobre si mesmas e sobre o seu mundo interior.

Evangelizar é comunicar, não escondendo a luz do Evangelho dentro de quatro paredes, através de um caminho que se vai tateando com cuidado entre os subterrâneos escuros da maldade e as comunidades cristãs chamadas a testemunhar a luz. Para isso, precisamos de ouvir a Palavra ativamente, entregando-nos a Deus sem cálculos, para que Deus se manifeste em nós sem medida.

Se a luz não for testemunhada pelas cristãs, também muitas vezes perseguidas em certos ambientes, outros o farão, como Eric Cantona (antigo jogador internacional francês), ao boicotar o Mundial de Futebol no Qatar lembrando os “milhares de mortos” durante construção dos estádios, chamando de aberração ao evento.

A luz da Palavra não serve só para evidenciar a mentira, mas para revelar a verdade por detrás das injustiças. A escuta passiva da Palavra pode ser uma forma de encobrimento da verdade que liberta. Pactuar com a Palavra implica não sermos neutros diante dos acontecimentos da história.

Por isso é que é muito importante o estudo da Doutrina Social da Igreja, na formação dos cristãos adultos e futuros presbíteros.

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