1 Cor 15, 35-37. 42-49; Lc 8, 4-15

Para além das memórias facultativas de S. Roberto Belarmino e Santa Hildegarda von Bingen, hoje, o mundo franciscano celebra a Festa da Impressão dos Estigmas de São Francisco, que nos ajudam a contemplar “o amor exageradamente grande” de Jesus ao dar a vida por nós na sua cruz.

A Legenda Menor de São Boaventura lê-se que

O Seráfico Pai Francisco, desde o início de sua conversão, dedicou-se de uma maneira toda especial à devoção e veneração do Cristo crucificado, devoção que até a morte ele inculcava a todos por palavras e exemplo. Quando, em 1224, Francisco se abismava em profunda contemplação no Monte Alverne, por um admirável e estupendo prodígio, o Senhor Jesus imprimiu-lhe no corpo as chagas de sua paixão. O Papa Bento XI concedeu à Ordem dos Frades Menores que todos os anos, neste dia, celebrasse, no grau de festa, a memória de tão memorável prodígio, comprovado pelos mais fidedignos testemunhos.

Esta experiência de São Francisco aproxima-se da do Apóstolo Paulo, que o leva a não nos deixar ignorantes acerca da ressurreição dos mortos e da relação entre o ser natural e o ser espiritual, entre a imagem do homem terreno e a imagem do homem celeste, da semente corruptível que ressuscita incorruptível.

Acerca de São Francisco, o seu mais afamado biógrafo Tomás de Celano afirmava que “levava a cruz enraizada em seu coração”. Que significado tem esta afirmação?

O frei Regis oferece 4 significados:

O primeiro é que Francisco não é uma figura acabada, porquanto é preciso olhar para a caminhada que fez até chegar à semelhança perfeita ou configuração com Cristo. O que aconteceu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante em seguir as pegadas de Jesus Cristo. Francisco lançou-se numa aventura sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença.

O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu “ego”. O homem só encontra sua verdadeira identidade, a sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade – “amou-os até o fim” – , e ele percorre este mesmo caminho.

O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude levou-o a respeitar e acolher o “negativo” dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o “diabólico”, rompendo com o farisaísmo e a autossuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é, de facto, livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros.

O quarto significado: seguir Cristo implica morrer um pouco a cada dia: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Não vivemos no mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, cada um vencendo-se a si mesmo e integrando o “negativo”, de modo a que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir as nossas cruzes. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.

A “perfeita alegria” que é tema central na espiritualidade franciscana advém de que “acima de todos os dons e graças do Espírito Santo, está o de vencer-se a si mesmo, porque de todos outros dons não podemos nos gloriar, mas na cruz da tribulação de cada sofrimento nós podemos nos gloriar porque isso é nosso”. À luz do Evangelho de hoje, traduziríamos assim, ajudados por aqueles quatro significados da experiência mística de São Francisco no Monte Alverne:

A tarefa da sementeira é sempre devida a Jesus Cristo; as tarefas que nos são devidas a nós e na qual somos chamados a colocar todas as faculdades da nossa alma são:

1. A de estar dentro do caminho e não à beira, protegendo os nossos corações para que o diabo não nos roube a Palavra semeada, impedindo-nos de acreditar para sermos salvos.

2. A de tirarmos as pedras do terreno dos nossos corações, de maneira a que a Palavra crie raízes que nos ajudem a perseverar nas provações.

3. A de termos a coragem de fazer escolhas de maneira a que a Palavra não seja sufocada pelos espinhos da “mundanidade espiritual”, formados pelo apego às coisas deste mundo.

4. A de procurar ter diante do Senhor com alegria, em todas as circunstâncias, um coração nobre e generoso, conservando a Palavra e dando fruto pela perseverança.

S. Roberto Belarmino e Santa Hildegarda de Bingen foram, diante dos desafios do seu tempo, exemplos de uma boa sementeira entre o caminho da cruz e a glória da ressurreição. Também em nós, à medida que nos deixarmos configurar com Cristo, na sequela da cruz, também em nós, quando aprouver ao mesmo Cristo, poderão vir a ser marcados os sinais da sua Paixão, não necessariamente os estigmas, mas a marcas sacrificiais do bem que fizemos aos outros, por Cristo, com Cristo e em Cristo.

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