Jo 19, 25-27; Hebr 5, 7-9 ─ Na Memória Obrigatória da Virgem Santa Maria das Dores

Ontem, na celebração da Festa da Exaltação da Santa Cruz, foi muito significativo evocarmos a passagem da Cruz das Jornadas Mundiais da Juventude pelas nossas dioceses portuguesas, como momento de exaltação deste símbolo central da nossa fé, transportado diante do olhar estranho de muitos. Hoje é interessante evocarmos o ícone de Nossa Senhora Salus Populi Romani que anda sempre unido à Cruz desde a JMJ do ano 2000, em Tore Vergata-Roma, e a partir do ano 2003 uma réplica presenteada pelo Papa João Paulo II (que, como sabemos, tinha como lema do seu pontificado “Totus Tuus”) acompanhou sempre a Cruz por todo o mundo.

Aconteceu com estes símbolos o que aconteceu com estas duas celebrações: a Festa da Exaltação da Santa Cruz (em 335 no oriente e 630 no ocidente) unida à Memória Obrigatória da Virgem Santa Maria das Dores, fixada definitivamente neste dia 15 de setembro por Pio X. Anteriormente, desde o Papa Pio VII (séc. XVII), intitulada as Sete Dores da Virgem, evocava os principais momentos dolorosos de Maria:

  1. A profecia de Simeão
  2. A fuga para o Egito
  3. A perda de Jesus
  4. O caminho para o Calvário
  5. A crucificação
  6. A deposição da cruz
  7. O sepultamento de Jesus

Revisitando, hoje, entre as duas opções que nos é dado proclamar, a cena do Calvário, aprendemos de Jesus, que se entrega definitivamente na Cruz, de Maria, mulher que ajuda a gerar a Igreja, e do discípulo amado, que podemos considerar o primeiro presbítero, os seguintes 4 desafios, para que, imitando a obediência no sofrimento, possamos vir a acolher com Jesus a plenitude da vida:

a) A proximidade física a quem sofre: “estavam junto à cruz de Jesus”. Maria e João são inspiração para a proximidade junto a quem sofre. Quanto mais próximos estamos de Cristo nos irmãos que sofrem, mais alegria e esperança cristãs vivemos no seu sentido mais profundo.

b) Predileção que afeta o coração: a mulher Maria e o discípulo predileto. Predileto não é meramente o que cai nas graças de alguém e mais que proximidade física, mas, no caso de João e de todos os verdadeiros discípulos, é seguir o que o Mestre tem no coração.

c) Acolhimento que cria laços: “recebeu-A em sua casa”. Foi este acolhimento que determinou a Igreja que somos, como comunidade que não deixa que nada interfira na comunhão assente no essencial, sem medo de ser invadidos, porque ancorados na verdade essencial.

d) Espírito de serviço desinteressado: “estando tudo consumado e inclinando a cabeça, Jesus expirou”. Esta expiração não é só o fim da paixão, mas o início da ressurreição. A consumação de uma obra começada. Inspiração para recomeçarmos sempre desde a invocação do Espírito de Deus que tudo é capaz de recapitular em Cristo.

Enquanto as notícias da guerra nos fazem temer «mãe de todas as bombas» que pode acabar com o mundo, o Evangelho apresenta-nos a Mãe de todos os discípulos prediletos de Jesus, chamados a testemunhar a verdade pelo interesse comum que é a salvação de todos.

João Paulo II, ao entregar o ícone de Nossa Senhora aos jovens animava-os a aproximarem-se mais de Jesus por intermédio de sua Mãe. Na sua homilia da Jornada Mundial da Juventude de 2003 explicou: “A Virgem Maria é-nos dada para nos ajudar a entrar em contacto de forma mais sincera e pessoal com Jesus. Com o seu exemplo ensina-nos como olhar com amor para Ele, que nos amou primeiro”.

É pelo serviço na obediência que nos assemelhamos a Cristo exaltado, cuja cruz gloriosa é uma atrativo e não repelente. Com os olhos do coração na paixão de Maria, aprendemos a esperança e a capacidade de levar a todos palavras e gestos que traduzam o melhor possível o amor de Jesus. É pelo acolhimento desinteressado que nos assemelhamos a Maria, para a geração de novos discípulos de Cristo.

Não foi, porventura, para Vós mais que uma espada aquela palavra que verdadeiramente trespassa a alma e penetra até à divisão da alma e do espírito: Mulher, eis o teu Filho? Oh que permuta! Entregam‑Vos João em vez de Jesus, o servo em vez do Senhor, o discípulo em vez do Mestre, o filho de Zebedeu em vez do Filho de Deus, um simples homem em vez do verdadeiro Deus. Como não havia de ser trespassada a vossa afectuosíssima alma ao ouvirdes estas palavras, quando a sua simples lembrança despedaça o nosso coração, apesar de ser tão duro como a pedra e o ferro?

─ SÃO BERNARDO, ABADE, (Sermo in dom. infra oct. Assumptionis, 14-15: Opera omnia, ed. Cisterc. 5 [1968], 273-274) (Sec. XII)/A Mãe de Cristo estava junto à cruz

Texto em Latim:

Stabat Mater dolorósa
Iuxta Crucem lacrimósa,
Dum pendébat Fílius.

Cuius ánimam geméntem,
Contristátam et doléntem,
Pertransívit gládius.

O quam tristis et afflícta
Fuit illa benedícta
Mater Unigéniti!

Quae moerébat et dolébat,
Pia Mater, dum vidébat
Nati poenas ínclyti.

Quis est homo qui non fleret,
Matrem Christi si vidéret
In tanto supplício?

Quis non posset contristári
Christi Matrem contemplári
Doléntem cum Fílio?

Pro peccátis suae gentis
Vidit Iésum in torméntis,
Et flagéllis súbditum.

Vidit suum dulcem Natum
Moriéndo desolátum,
Dum emísit spíritum.

Eia, Mater, fons amóris
Me sentíre vim dolóris
Fac, ut tecum lúgeam.

Fac, ut árdeat cor meum
In amándo Christum Deum
Ut sibi compláceam.

Sancta Mater, istud agas,
Crucifíxi fige plagas
Cordi meo válide.

Tui Nati vulneráti,
Tam dignáti pro me pati,
Poenas mecum dívide.

Fac me tecum pie flere,
Crucifíxo condolére,
Donec ego víxero.

Juxta Crucem tecum stare,
Et me tibi sociáre
In planctu desídero.

Virgo vírginum praeclára,
Mihi iam non sis amára,
Fac me tecum plángere.

Fac, ut portem Christi mortem,
Passiónis fac consórtem,
Et plagas recólere.

Fac me plagis vulnerári,
Fac me Cruce inebriári,
Et cruóre Fílii.

Flammis ne urar succénsus,
Per te, Virgo, sim defénsus
In die iudícii.

Christe, cum sit hinc exíre,
Da per Matrem me veníre
Ad palmam victóriae.

Quando corpus moriétur,
Fac, ut ánimae donétur
Paradísi glória.
Amen. Allelúia.

Sequência litúrgica:

Estava a Mãe dolorosa,
Junto da cruz lacrimosa,
Enquanto Jesus sofria.

Uma longa e fria espada,
Nessa hora atribulada,
O seu coração feria.

Oh quão triste e tão aflita
Padecia a Mãe bendita,
Entre blasfémias e pragas,

Ao olhar o Filho amado,
De pés e braços pregado,
Sangrando das Cinco Chagas!

Quem é que não choraria,
Ao ver a Virgem Maria,
Rasgada em seu coração,

Sem poder em tal momento,
Conter as fúrias do vento
E os ódios da multidão!

Firme e heróica no seu posto,
Viu Jesus pendendo o rosto,
Soltar o alento final.

Ó Cristo, por vossa Mãe,
Que é nossa Mãe também,
Dai-nos a palma imortal.

Maria, fonte de amor,
Fazei que na vossa dor
Convosco eu chore também.

Fazei que o meu coração
Seja todo gratidão
A Cristo de quem sois Mãe.

Do vosso olhar vem a luz
Que me leva a ver Jesus
Na sua imensa agonia.

Convosco, ó Virgem, partilho
Das penas do vosso Filho,
Em quem minha alma confia.

Mãos postas, à vossa beira,
Saiba eu, a vida inteira,
Guiar por Vós os meus passos.

E quando a noite vier,
Eu me sinta adormecer
No calor dos vossos braços.

Virgem das Virgens, Rainha,
Mãe de Deus, Senhora minha,
Chorar convosco é rezar.

Cada lágrima chorada
Lembra uma estrela tombada
Do fundo do vosso olhar.

No Calvário, entre martírios,
Fostes o Lírio dos lírios,
Todo orvalhado de pranto.

Sobre o ódio que O matava,
Fostes o amor que adorava
O Filho três vezes santo.

A cruz do Senhor me guarde,
De manhã até à tarde,
A minha alma contrita.

E quando a morte chegar,
Que eu possa ir repousar
À sua sombra bendita.

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