Jesus tem sede de que tenhamos sede d’Ele

Jo 19, 17-18.25-30; Com a ajuda de D. Tolentino Mendonça em O Elogio da Sede

Se pensarmos na nossa vida terrena como um deserto e na vida eterna como uma fonte inesgotável, não é difícil pensarmos que a nossa vida aqui é uma experiência de uma sede insaciável, que só saciaremos após a morte física.

Neste mundo, algum medo vem-nos do facto de, por vezes, não sabermos saciar a nossa sede interior ou de termos dúvidas sobre as condições da nossa sobrevivência. Por isso, a sede, sobretudo a de infinito, causa-nos dor, desvitalizando-nos e levando-nos ao nosso limite.

E é no limite que descobrimos que o melhor é fazermos como Jesus: assumir que temos sede! Não só sede de água, mas sede de infinito. É de infinito que a nossa alma se sente vazia e sempre à procura de respostas ou de soluções para o que a impede se sentir-se completa.

No Evangelho, estamos diante de uma contradição: que Jesus, a Fonte de todas as respostas, tenha sede. Na árvore da Cruz, Jesus declara ter sede para nos demonstrar que quanto mais profundas forem as nossas raízes, mais os ramos, folhagem e flores darão frutos de vida eterna. A consumação da sua sede está ali, do outro lado da Cruz, na Ressurreição.

Calar a sede de infinito implicou para Jesus, e implica para nós, desapegarmo-nos daquilo que não é essencial, uma vez que desejar o que é supérfluo provoca uma sede que o próprio Jesus não pode saciar. Ele afirmou-se sempre como Fonte que jorra para a vida eterna, aonde podemos ir beber gratuitamente a água viva. Mas para a obtermos, requer-se sempre um esforço. Mas como? O Principezinho, de Sait-Exupéry, na peregrinação da sua alma, depois de deixar o seu planeta, uma das figuras que encontra é um estranho comerciante de pílulas que vende para matar a sede:

«— Olá, bom dia! — disse o principezinho.
— Olá, bom dia! — disse o vendedor.
Era um vendedor de comprimidos para tirar a sede. Toma-se um por semana e deixa-se de ter necessidade de beber.
— Porque é que andas a vender isso? — perguntou o principezinho.
— Porque é uma grande economia de tempo — respondeu o vendedor. — Os cálculos foram feitos por peritos. Poupam-se cinquenta e três minutos por semana.
— E o que é que se faz com esses cinquenta e três minutos?
— Faz-se o que se quiser…
“Eu”, pensou o principezinho, “eu cá se tivesse cinquenta e três minutos para gastar, punha-me era a andar devagarinho à procura de uma fonte…”»

SAINT-EXUPÉRY, O Principezinho

Há muitas formas de iludirmos a nossa procura de matar a sede e algumas formas são fuga do essencial (que é “invisível aos olhos”). Por vezes, tendemos a procurar meios rápidos, em vez de procurarmos a eficácia de procurarmos no nosso interior, através do discernimento, fontes mais saudáveis, embora mais lentas. É tão fácil apegarmo-nos à ideia de poupar cinquenta e três minutos e sacrificarmos a isso o prazer de caminhar devagarinho à procura de uma fonte.

Os idosos têm, por isso, algo a ensinar-nos sobre a lentidão com que vivem a última etapa das suas vidas, como escreve Milan Kundera, em “A Lentidão”:

Há um laço secreto entre lentidão e memória, entre velocidade e esquecimento. Tomemos uma situação das mais banais: um homem caminha pela estrada. Por instantes, procura recordar-se de alguma coisa que, no entanto, lhe escapa. Então, instintivamente, ralenta o passo… Na matemática existencial esta experiência assume a forma de duas equações elementares: o grau de lentidão é diretamente proporcional à intensidade da memória; o grau de velocidade é diretamente proporcional à intensidade do esquecimento.

Celebrar um funeral ─ ao mesmo tempo em que exercemos a nossa compaixão para com quem vê um ente querido partir, rezando pela bem-aventurança eterna de quem deixa este mundo ─ é um oportunidade para medirmos os nossos passos na procura de vermos saciada a nossa sede: tensos e apressados ou humildes e distendidos? Nutridos pela memória ou secos por causa da velocidade? Sentimo-nos a caminhar devagarinho para uma fonte?

O caminho que nos sacia verdadeiramente é o do passo-a-passo dos gestos pequenos, realizados para solução das verdadeiras necessidades da vida. Um desses gestos sublimes que jorra da árvore da Cruz é o nascimento da Igreja e o acolhimento recíproco entre Maria e o discípulo amado. Pois é como discípulos amados que todos podemos sentir-nos acolhidos sempre na comunidade, acreditando que assim os nossos irmãos que partem são também acolhidos no abraço eterno do Pai, na Igreja triunfante.

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