Amor cristão: o “dress code” de um banquete desproporcionado

Ez 36, 23-28; Sal 50 (51); Mt 22, 1-14

No Evangelho, observamos que Jesus está a falar com os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo, estes habituados a manifestar em público, com vestes frondosas, o facto de serem os arautos da religião. Na parábola que Ele lhes/nos conta, fala de um banquete preparado por um rei para o seu filho e em abertura todos. Entre os “bons e maus” que são convidados por fim, parece-nos desproporcionado que só um apareça sem a “veste nupcial” (seria um “príncipe” ou um “ancião” infiltrado?!).

Na parábola, nota-se que há dois tipos de convidados. Uns que pareciam fazer parte de uma lista precisa, como se de um clube ou setor social se tratasse: são os que, num primeiro momento, nem sequer querem saber o propósito e a ementa da festa e, num segundo momento, sabendo dos pormenores, reagem ou pela fuga para atividades mais “rentáveis” e maltratam ou matam os servos do rei.

O segundo tipo de convidados são os que não estão, à partida, alistados. Basta o encontro, em caminhos ou encruzilhadas, para a possibilidade de entrar num banquete do filho do rei. Seria estranho pensar que a imediatez entre o convite e a boda desse tempo para ir a casa vestir as tais vestes frondosas, a título de apresentação externa, ou de ter tempo de reparar todos os danos causados na alma por más ações ao relacionamento com Deus e com os irmãos. Talvez bons e maus possam ou não ser ou estar bem dispostos a entrar na festa, com sentimentos e atitude para sair dela transformados. Vindos de caminho ou errância vierem, todos têm a possibilidade de um outro tipo de encontro, que pode alterar por completo a vida, considerada no seu interior. Assim, depende de como este inteior está revestido e até que profundidade ou altitude se deixa tocar.

Na Igreja, é Jesus a máxima expressão do amor de Deus. E Ele convida a todos a entrar num caminho em que, ao longo dos anos da vida, cada pessoa é chamada a revestir-se dos seus sentimentos e atitudes. Como anuncia a leitura do Antigo Testamento, a presença no banquete não é uma questão de méritos pessoais (não é um convite só aos “bonzinhos”); já o Reino implica um trabalho pessoal de renovação, a partir da contemplação e imitação da vida de Cristo.

Por isso, a vida cristã não deve ser só uma experiência de assembleia de iguais, mas de um caminho pessoal de renovação, para o qual se necessita de acompanhamento. Neste acompanhamento, ninguém de boa vontade deveria ficar de fora, para não se correr o risco do propósito para o qual Jesus conta a parábola: a tendência farisaica e fanática dos príncipes dos sacerdotes e anciãos do povo.

Pertencer ao Povo de Deus, no caminho da história, com coração novo (feito de carne) e espírito novo (dinamizado pelo amor), é dádiva e tarefa. Dádiva de um Deus que Se oferece por completo e tarefa de um ser humano que Lhe ensaia continuamente uma responde, por vezes desajeitadamente. Considero muito interessante a afirmação de que pela Religião o homem busca Deus e no Cristianismo é Deus que vem ao encontro do ser humano em Jesus Cristo. Esta vinda é infinitamente perfeita e pode definir-se como “graça suficiente”; já a “eficácia da graça” depende da vontade do ser humano, nem sempre disposto a acolher o desígnio de amor que já está semeado em cada pessoa.

%d bloggers like this: