Jesus é um “sapador” e a sua missão é um “contrafogo”

XX Domingo do Tempo Comum (C) ─ Jer 38, 4-6. 8-10; Hebr 12, 1-4; Lc 12, 49-53

Infelizmente, tem acontecido várias vezes o Evangelho deste domingo ser lido ao mesmo tempo em que incêndios destroem vidas e florestas. Por isso, não é fácil ouvir Jesus dizer “Eu vim trazer o fogo à terra e que quero Eu senão que ele se acenda?”. Ainda mais porque esta linguagem não é habitual no evangelista Lucas. Porque terá este apóstolo tido necessidade de transmitir estas palavras? Que sentido têm? Como é possível compreendê-las nestas nossas circunstâncias?

O Evangelho deste domingo traça a definição da missão de Jesus, que pode ser entendida com uma linguagem mais negativa relacionada com o julgamento e o castigo, ou com uma linguagem mais positiva sobre a missão de evangelizar. Qual será a linguagem oportuna? Ou mais eficaz?

O que temos vindo a ver nas notícias, sobre o combate aos incêndios, não deixa de ser paradoxal: muitos meios e uma não fácil ou possível resolução rápida, pelas distâncias humanas ou descontinuidade dos terrenos. Por seu lado, aqueles que, aceitando com realismo as más condições o terreno, põem mãos à obra sem calculismos teóricos, arriscando as próprias vidas, porventura criticados como desobedientes a patentes ou procedimentos desajustados à realidade, podem servir de inspiração para a resiliência necessária para a evangelização no meio de contrariedades e tribulações.

Também no tocante à Fé, frequentemente acontece assim: se se andar por aí só a castigar os errantes, a propagação do mal não só não se apaga, como até pode aumentar. Tudo o que se reprime à força tende a reacender-se. Não se quer dizer que a ameaça de castigo ou a aplicação de uma punição, por vezes, não sejam precisos (não só em quem faz o mal, mas também, o que é quase raro, em quem deixa de fazer o bem). A alternativa evangélica é o lançamento do “contrafogo” ou “fogo controlado” da Palavra da verdade e imediatos gestos de misericórdia. Evangelizar não é somente defender a verdade de uma doutrina, mas, sobretudo, dar testemunho da verdade com a própria vida e não demorar a curar as feridas do corpo e da alma.

Quando os sapadores lançam um contrafogo, tentam apagar o incêndio, provocando uma divisão o mais nítida possível entre a área em chamas e a área não queimada. Mas os sapadores não têm só a missão de lançar fogos controlados! Têm a responsabilidade de prevenir com a limpeza que não haja áreas secas combustíveis. Na missão em que o “sapador” Jesus nos quer cúmplices também é assim: cuidar das vidas humanas, para que sejam isentas de mentiras incendiárias e destrutivas, enchendo-as dos dons espirituais que nos garantem a salvação.

Porque onde há fumo quase sempre há fogo, por vezes, nas instituições que têm por missão promover e dinamizar a vida da fé, também pode acontecer o que, pelo menos se insinua acerca de algumas instituições sociais, que têm por tarefa o ordenamento da vida e património humanos: afastam-se os profetas e enaltecem-se os prevaricadores. Quer dizer: calam-se as vozes de pessoas sábias e experientes e promovem-se estratégias pastorais ou sociais ineficazes. Foi o que aconteceu com o profeta Jeremias, preso numa cisterna, atolado no lodo e a passar fome. Começamos a ser cúmplices da verdade e da misericórdia se fizermos como Ebed-Melec, o etíope, denunciando as injustiças e salvando os profetas deste tempo. Foi o que aconteceu com Jesus que, apesar das palavras e gestos reveladores do amor de Deus, acabou no patíbulo da cruz.

A carta aos Hebreus sugere-nos que ser testemunhas da verdade implica libertarmo-nos “de todo o impedimento e do pecado”, para conseguirmos combater o bom combate que será sempre acabar com o mal e defender o bem. Acabar com o sofrimento, ainda que, para isso, seja preciso algum sacrifício (sacrum facere). “Não desistir até ao sangue” implica não desistir de defender quem dá testemunho do bem. E se na defesa das florestas há sapadores e bombeiros que o fazem, na defesa da vida eterna não pode ser o menor esforço a ganhar. Vale mais prevenir com bom ânimo do que combater desorientados.

Este ano, o tema da Semana Nacional da Mobilidade Humana é “Construir o futuro com Migrantes e Refugiados”. Quer os que partem à procura de uma vida melhor, quer os fugitivos da guerra que somos chamados a acolher têm algo a dizer-nos sobre a mobilidade da vida não só no sentido itinerante, mas também sobre os dramas que se vivem no confronto com a realidade descontínua entre sociedades, culturas e formas de viver a fé. Construir o futuro com eles implica um diálogo corajoso, através de uma comunicação não-violenta, juntando os pontos na ambição de nos encontrarmos todos diante de uma realidade maior que, à luz das experiências da Sagrada Escritura, inclui um mais além para o qual somos convocados pelo mistério do amor de Deus. Nesta perspetivas, a divisão entre ideias e ações boas e ideias e ações más poderá vir a promover a união entre as pessoas, não necessariamente ou não meramente nas ligações de sangue, mas até nos relacionamentos mais improváveis. A apagar um grande incêndio, juntam-se, por vezes, pessoas de vários lugares, com histórias diferentes e talentos diferentes. Porque não haveria de ser assim nas dinâmicas da vida da fé?!

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