Do planalto da “filia” ao cume do “ágape”

[Leitura] L 1 1 Sam 26, 2. 7-9.12-13.22-23;Sal 102 (103), 1-2. 3-4. 8 e 10. 12-13 L 2 1 Cor 15, 45-49 Ev Lc 6, 27-38

[Meditação] É curioso que na versão de Lucas o discurso das bem-aventuranças tenha sido proferido num planalto. Na versão de Mateus terá acontecido no cimo do monto, inserindo-se, por isso, no Sermão da Montanha. Imagino que Jesus, olhando para os seus discípulos e apontando-lhes o cume acima daquele planalto (segundo a geografia de Lucas) acrescentou o mandamento que proclamámos neste VII domingo do tempo comum: «Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam». Esses possíveis inimigos também poderiam estar na «grande multidão» (cf. Lc 6,17.20-26) e, assim, estavam a ouvir o que Jesus disse aos seus discípulos bem-aventurados. No episódio de hoje, para além de serem considerados “amigos” (fílous) eram chamados a viver segundo a “ágape” − a nova forma de traduzir o amor cristão, levado até ao limite possível pelo exemplo de Cristo até à cruz.

A experiência mais maravilhosa que se pode fazer é a de sentir-se amado. Este amor pode experimentar-se de várias formas entre a erótica e a filantrópica. No entanto, no ágape (com que, erradamente, por vezes, se chama uma merenda partilhada) o que está acima de tudo não é a conquista da plenitude pessoal (os “óscares” a que se aspira), mas o sacrifício que se é capaz de fazer pelo bem dos outros, mesmo se entre estes estão inimigos ou pessoas incómodas. E sem esperar nada em troca, mesmo que seja um reconhecimento pessoal da bondade realizada.

Jesus expande a categoria do amor cristão até onde é possível, na tentativa de imitar Deus. A medida do amor cristão é amar sem medida porque é essa a medida do amor de Deus. Ou seja, a forma como vemos e sentimos os outros deve inspirar-se na misericórdia infinita de Deus para connosco. Poderíamos, enfim, seguir alguns passos para treinarmos esta forma de amar que nos identifica como filhos de Deus:

1º – Reconhecer as nossas limitações pessoais com muita humildade.
2º – Rezar pelos inimigos também é uma forma preliminar de os amarmos.
3º – Saudar ou cumprimentar os inimigos, mesmo quando eles não respondem ou não estendem a mão.
4º – Dar passos simples ou fazer gestos simples que demonstrem o querer bem ou o esforço pela instauração da paz fraternal.
5º – Se andamos sempre com Jesus, que deu a vida por todos, arriscamo-nos a dar a vida por quem não esperávamos, com a força do Seu amor, amando sem medida (fora da lógica humana do egoísmo).

Como David nos faz acreditar, no outro (mesmo num inimigo) pode estar um “ungido do Senhor”. A ausência dos sinais de “guerra” pode significar que queremos respeitar o pedaço de “céu” que está em cada um, apesar da carne que tende para o mal.

[Oração] Pelos inimigos:

Senhor, há certas pessoas pelas quais desejo orar porque sei que colocarás o Teu amor por elas no meu coração. Ajuda-me a orar especialmente pelas pessoas que me feriram [mencione os nomes dessas pessoas agora, uma a uma]. Eu te agradeço porque orar pelos outros muda não apenas a vida deles, mas a minha também.

[ContemplAção] Em: twitter.com/padretojo

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